sábado, 5 de junho de 2010

Caso em Italia


O caso que me disponho a narrar é muito conhecido na Itália, não só em virtude da situação eminente da pessoa que foi seu protagonista, como pela evidência incontestável da documentação que o confirma. Finalmente, um padre jesuíta, pouco escrupuloso, contribuiu involuntariamente para atrair sobre este caso a atenção pública, tentando destruí-lo pela arma pouco evangélica das insinuações caluniosas, provocando assim uma polêmica que se voltou contra ele próprio.
Trata-se de um acontecimento relatado pelo sr. Ferdinando de Rio, autor de notáveis obras sobre o ocultismo filosófico e diretor da revista de estudos psíquicos e espíritas Il Mistero, publicada em Milão. Ele já incluíra uma narrativa do caso em questão em seu livro Il ciclo progressivo delle esistenze, porém voltou ao assunto, com maior número de pormenores, no número de setembro de 1933 daquela revista, de onde extraio o relato que se segue.
A narrativa do sr. Ferdinando de Rio é a seguinte:
“O fenômeno mediúnico em apreço verificou-se a 3 de março de 1901. Achava-me em Paris há um ano aproximadamente. Ali fora por ocasião da Exposição Internacional de 1900, na qualidade de correspondente de El Fígaro, de Buenos Aires.
O sr. Giuseppe Borgazzi viajara da América do Sul a Paris em minha companhia. Na minha casa e sob a minha direção, uma faculdade mediúnica, até então ignorada, se manifestara nele de repente e, em alguns meses, atingira uma rara perfeição sob a forma de escrita mecânica, em estado de transe completo. Isso me auxiliava a continuação de meus estudos metapsíquicos de natureza experimental, que eu começara já há muitos anos, na América Meridional. Consagrava-me mais especialmente às pesquisas de penetração científica e filosó-fica.
De tempos em tempos, como para reforçar a minha profunda convicção na continuação individual da vida após a morte terrena, sob uma forma diferente, eu espontaneamente recebia mensagens, de natureza a provar a identidade das personalidades mediúnicas que se comunicavam. Tais provas nunca foram falsas, mas eu não me servia delas senão para formar um arquivo de documentos preciosos, para meu pró-prio uso.
Ora, na noite de 1º de março de 1901, interrompendo subitamente as respostas às habituais perguntas de natureza teórica, o médium escreveu:
“Em face de minha nova existência, tudo desaparece: rancores, ódios e cóleras da vida terrena. Abandono tudo e limito-me a invocar a clemência de Deus para meus inimigos e para todos aqueles que me tornaram amarga a vida na Terra.
Sois as únicas pessoas com as quais pude relacionar-me após meu falecimento. Penosamente impressionado por meu novo estado, suplico-vos que não me abandoneis no meu de-sejo de reabilitação.
É-me permitido comunicar-me convosco e deveis encarregar-vos do cumprimento de uma vontade que manifestei ainda na vida terrena mas que meus herdeiros desprezaram.”
Seguia-se a indicação de sua última vontade não executada, de natureza familiar, a qual, por motivos delicados, devo omitir aqui. Perguntei-lhe:
– Vosso desejo ficou expresso em testamento?
Foi-me respondido: – Não; ele foi expresso à única pessoa presente.
Como eu o convidasse a precisar os nomes e os dados necessários, a entidade acrescentou:
– Sou Vicenzo Reggio, ex-presidente da Corte de Apelação, falecido em Gênova a 27 de outubro de 1900, às 6:30 da manhã. Meu domicílio estava situado em corso Paganini nº 16. Meu irmão é Tommazo Reggio, arcebispo de Gênova. Escrevei-lhe. Adeus!
Escrevi ao arcebispo a seguinte carta:
“Paris, 3 de março de 1901.
Monsenhor Tommazo Reggio, arcebispo de Gênova.
Rogo a V. Exa. que me perdoe a liberdade de escrever-lhe. Eis o que me leva à sua presença:
Cultivo seriamente e com ponderação a ciência que se propõe a examinar os mistérios da continuação da vida da alma individual em outras existências, após a morte do corpo, ou melhor, depois da destruição do corpo terreno. Entre as minas experiências de penetração no invisível, aconteceu-me muitas vezes receber, de personalidades desconhecidas, pedidos de comunicações destinadas a pessoas vivas que me são igualmente desconhecidas.
Um desses pedidos me foi feito na noite de 2 de março corrente, por uma individualidade que afirmou ser Vicenzo Reggio, ex-presidente da Corte de Apelação, irmão de Tommazo Reggio, arcebispo de Gênova. Essa entidade diz ter falecido em Gênova a 27 de outubro de 1900, em Corso Paganini nº 16, às 6:30 da manhã. Ela acrescenta que V. Exa. foi a única pessoa presente no momento de sua morte e que então lhe manifestara uma vontade imposta pela consciência mas não indicada em seu testamento. Ora, queixa-se ela agora de que esta sua vontade extrema não foi executada.
Limito-me, por prudência e por uma reserva facilmente compreensível, a fornecer a V. Exa. as primeiras indicações do fato. Silencio, por enquanto, com relação ao resto da comunicação, que lhe transmitirei quando V. Exa. me houver declarado que os dados por mim fornecidos são exatos e que deseja conhecer o resto da mensagem.
Minha fé não é cega. Desejo passar tudo pelo crivo da verdade, pois que minha alma não se alimenta de ilusões em suas pesquisas, mas sim de verdades positivas.
Tenho, por este fato, um interesse extraordinário, dependente como ele está da confirmação de uma per-sonalidade eminente e especial como V. Exa.
Faço empenho em acrescentar que me comprometo sob palavra de honra a jamais revelar a quem quer que seja o objeto da dita comunicação. Quanto ao fenômeno probante, não o farei conhecer senão quando V. Exa. mo permitir.
Queira V. Exa. aceitar etc.”
O arcebispo Tommazo Reggio respondeu imediatamente, com uma carta registrada e datada de 7 de março de 1901. Em Il Mistero, reproduzi em fotografia a carta autógrafa, assim como o envelope, com os selos da época e o carimbo da agência postal de Gênova, com dia, mês e ano.
Eis a carta do arcebispo Reggio:
“Senhor,
Sua carta me causou um sentimento de surpresa e de curiosidade ao mesmo tempo. Agradeço-lhe vivamente a comunicação que V. Sa. me enviou. Os dados indicados são exatos. Com todo gosto receberei a outra carta que me foi prometida e que deve conter importantes palavras ditadas por meu pobre irmão. Desejaria também saber, se possível, como o espírito foi evocado ou como ele se manifestou sem ser e-vocado.
Eis uma coisa que, como bem disse V. Sa. em sua carta, me interessa vivamente. Assim como de tão boa vontade V. Sa. me escreveu, rogo-lhe complete o que foi iniciado, comunicando-me todas as outras informações que possui a es-se respeito.
Agradecendo-lhe antecipadamente etc.
“Tomazzo, Arcebispo”
Respondi à carta do arcebispo, transmitindo-lhe a comunicação de seu falecido irmão.
Não recebi outras cartas suas, mas, em compensação, recebi do espírito de Vicenzo Reggio mais a seguinte comunicação:
“Meu irmão, reconhecendo sua falta ou inspirado pelo vosso espírito protetor, remediou o mal que causou. Sinto-me feliz com esta intervenção superior. Deste modo tranqüilizado, posso prosseguir em meu caminho para o aperfeiçoamento espiritual.
Tive discussões sobre o espiritismo com esse meu irmão sacerdote. Nós admitíamos esta doutrina em seu conjunto, porém jamais quisemos estudá-la a fundo. Se ele me atendesse, eu o encaminharia agora, de um modo seguro, para o verdadeiro caminho religioso e assim poderia abrir no meio católico um debate interessante.
Conheço atualmente a diferença existente entre a justiça do mundo em que me acho e aquela à qual estamos sujeitos quando na Terra. Conheço agora os numerosos erros nos quais caímos sob a égide do código penal. Gostaria agora de empreender a reforma que se impõe para a legalidade e a jus-tiça.
Vivi longamente no meio judiciário, respeitei profundamente a moralidade que me era imposta pelas leis, mas presentemente reconheço os seus defeitos.
A legislação e o clero: eis as instituições que é preciso re-formar.”
Tais são os fatos. Chegamos à análise das comunicações positivas que eles comportam. Os três pontos principais do problema são os seguintes:
1) Assim como o médium, não tenho nenhum conhecimento da existência terrena do comunicante, de seu irmão arcebispo, nem dos dados precisos relativos à morte da personalidade que se comunica.
2) O morto vem comunicar-nos um fato que não consta de qualquer documento público, isto é, que seu irmão era a única pessoa presente no momento de sua morte.
3) O morto nos revela um segredo que ele era o único a conhecer, além de seu irmão.
Relativamente ao primeiro ponto, a hipercrítica poderia objetar que o médium ou mesmo eu podíamos ter tido conhecimento, de uma forma qualquer, do conjunto dos dados referentes ou às duas personalidades em apreço ou ao falecimento da pessoa que se comunicava, pois esta última notícia fora publicada nos jornais.
No que diz respeito ao segundo ponto, pode-se objetar que o arcebispo de Gênova, a única pessoa presente à morte de seu irmão, era conhecido do público.
O terceiro ponto, porém, é formidável: ele não apresenta nenhum lado fraco aos ataques da crítica.
Trata-se aí de um segredo encerrado no círculo de um morto e de um vivo. Há o simples fato de um pedido que, feito no momento da morte e não executado, o defunto vem recor-dar.
Esse fato secreto é indiscutivelmente confirmado pelo precioso documento que constitui a carta do arcebispo de Gênova. Este, desprezando todas as conveniências que lhe impunha a sua situação delicada, arrastado pela natureza extraordinária da revelação, é levado a responder de um modo fulminante, para libertar a sua consciência como por um ato de contrição: “É verdade!”
Que prova mais decisiva da sobrevivência do eu pode ser imaginada?”
Aqui termina o relato do sr. Ferdinando de Rio. A propósito das considerações que o acompanham, observarei inicialmente que o narrador, com um fito de severa investigação científica, escreve que os dois primeiros pontos principais do caso em questão se prestam a uma objeção legítima. Ele reconhece que o médium e o experimentador podiam conhecer o conjunto dos informes forneci-dos mediunicamente a respeito dos irmãos Reggio, inclusive o pormenor muito particular de o arcebispo ter sido a única pessoa presente à cabeceira do moribundo.
Se eu assinalo esta circunstância é para observar, por minha vez, que o sr. De Rio quis, imparcialmente, levar em consideração a possibilidade em questão, mas que ela é praticamente insustentável, sobretudo tendo em vista esclarecimentos suple-mentares que eu pude obter a respeito. Tinha, com efeito, pedido ao sr. De Rio que me fornecesse informes mais minuciosos sobre a sua pessoa e a do médium, fazendo-me saber se pelo menos um dentre eles era genovês, se residiam há muito em Buenos Aires (Argentina) e se, durante a sua permanência em Paris (França) e antes do acontecimento que relata, um ou outro teriam vindo à Itália e ficado certo tempo em Gênova.
Eis a resposta do sr. De Rio:
“Não sou genovês, bem como o sr. Borgazzi. Ele é de Fer-rara, ao passo que sou do Piemonte.
Vim para Buenos Aires em 1894. Creio que o sr. Borgazzi já se encontrava aqui. Conheci-o em 1898, mas as nossas relações foram então inteiramente superficiais.
Estive em Paris em 1900, como correspondente do jornal El Fígaro, de Buenos Aires. Ali encontrei o sr. Borgazzi, que quase na mesma época chegara da Argentina. Nossas relações se tornaram então mais assíduas e vivíamos muito ligados um ao outro.
Depois de alguns meses, no decurso dos quais nossas conversas sobre o espiritismo e a mediunidade se haviam tornado freqüentes (o sr. Borgazzi era totalmente materialista), a faculdade mediúnica apareceu repentinamente nele, após algumas tentativas de sessões. Cultivei-a regular e metodicamente todas as noites e ela surgiu sob a forma da escrita mecânica, a mais convincente, e me deu resultados de primeira ordem. Nenhum de nós deixou Paris. A comunicação de Vicenzo Reggio produziu-se subitamente, sem ter sido provocada.”
Resulta destes informes que, se os protagonistas do caso não eram genoveses, dificilmente poderia interessar-lhes a crônica demográfica de uma cidade onde nunca vivera. Se eles se encon-travam em Buenos Aires há seis ou sete anos, esta suposição se torna cada vez mais insustentável. Por outro lado, durante a sua permanência em Paris, eles nunca foram à Itália.
Diante da eloqüência cumulativa destes dados, deve-se eliminar toda possibilidade de os srs. De Rio e Borgazzi terem sido informados, em Paris, das particularidades da morte e dos negócios pessoais de um velho magistrado genovês aposentado, falecido havia cinco meses e que lhes era desconhecido. O fato, muito particular, de o arcebispo ter permanecido só à cabeceira de seu irmão moribundo era, além disto, de tal natureza que eles não podiam conhecê-lo por documentos públicos, mas somente por intermédio de alguma pessoa da família do defunto. Ora, eles ignoravam até a existência deste.
Nenhuma dúvida há de que estas considerações bastam para conferir um idêntico valor probatório às duas proposições das quais o sr. De Rio não faz grande caso, por um louvável escrúpulo de imparcialidade científica. De qualquer modo, trata-se de duas proposições que não são indispensáveis para encarecer, sob o ponto de vista espiritualista, o caso em questão. Há, com efeito, uma terceira que basta, por si só, para demonstrar fortemente a origem espiritual do caso.
Como se pôde ver, o sr. De Rio a formula nos seguintes termos:
“O terceiro ponto, porém, é formidável: ele não apresenta nenhum lado fraco aos ataques da crítica.
Trata-se aí de um segredo encerrado no círculo de um morto e de um vivo. Há o simples fato de um pedido que, feito no momento da morte e não executado, o defunto vem recor-dar.”
Este último ponto, muito importante, foi posteriormente es-clarecido – tanto quanto possível – devido a uma polêmica com um jesuíta muito conhecido na Itália – o padre Petazzi. Este, não podendo contestar a autenticidade do caso em questão, por causa da carta assinada e reproduzida em clichê pelo sr. De Rio, mas decidido, não obstante, a demoli-lo apesar de tudo, nada de melhor achou para fazê-lo do que lançar esta insinuação: que, fingindo defender a causa do espiritismo, o narrador se empenhara em um estratagema destinado a favorecer algum herdeiro descontente.
O sr. De Rio respondeu vigorosamente à baixa insinuação do padre Petazzi, observando, entre outras coisas:
“(...) que a revelação dizia respeito unicamente a um ato de justiça e piedade, destinado a aliviar o morto de uma responsabilidade de consciência de que se sobrecarregara durante a sua vida terrena. Não que se relacionasse com uma extorsão de dinheiro.”
Eis, aliás, uma outra passagem da polêmica em questão que permite compreender quão sério era o ato de justiça e de consciência que o irmão arcebispo desdenhara cumprir. O sr. De Rio, dirigindo-se ao padre Petazzi, escreve:
“Em lugar de louvar minha delicadeza com relação a um prelado a quem minha revelação teria comprometido gravemente aos olhos do mundo católico, provocando um escândalo, quereis fazer disto uma arma contra a autenticidade do fenômeno. Pobre sofisma o vosso, que de modo algum empana a realidade grandiosa do fato, mas que serve, ao contrário, para revelar o substrato de vossa caridade evangélica. Em certo momento, recebi dessa alma excelente que foi monsenhor Reggio um comovido agradecimento e isto me bastou. Não posso acrescentar outra coisa, devido à promessa que fiz a monsenhor Reggio. Eu nem teria dito o que acabo de dizer se não tivesse sido forçado a isto pelo pouco cortês padre Petazzi, que não hesita em homenagear seu augusto superior com o título de ingênuo... e herético. Mas, diga ele o que quiser, monsenhor Reggio era um crente sincero do espiritismo.”
Sobre este último ponto da questão, minha posição é confirmar a asserção do sr. Ferdinando de Rio. Com efeito, na época em que se produziu o fato que relata, havia em Gênova o Círculo Científico Minerva, graças ao qual toda a imprensa genovesa – e em parte também a de toda a Itália – fora confundida pelas impressionantes experiências que ali se desenrolavam com a médium Eusápia Paladino, assistidas pelos professores Enrico Morselli, Francesco Porro, pelo doutor Giuseppe Venzano, pelo sr. Luigi Arnaldo Vassalo, diretor do Século XIX, e pelo autor deste trabalho. Ora, naquela ocasião, conheci pessoalmente o arcebispo Reggio, que se interessava vivamente por nossas experiências e desejava conhecê-las um pouco mais do que narravam os jornais.
Em suma, do que precede verifica-se que um segredo de consciência, revelado durante uma sessão mediúnica em Paris por uma pessoa falecida em Gênova, não era conhecido senão por uma pessoa. O morto que se comunicara, assim como o vivo, depositário do segredo, eram ignorados pelo médium e pelo experimentador. Esta última circunstância é teoricamente muito importante, pois serve até para eliminar uma hipótese fantástica a que recorrem os nossos irredutíveis adversários, quando ficam isolados em suas últimas posições. Segundo esta hipótese, a subconsciência do médium teria captado o segredo na subconsci-ência do arcebispo e disto ter-se-ia utilizado para mistificar o próximo.
Acontece que essa amplificação desnecessária da hipótese te-lepática – tão absurda em si mesma que se torna impossível aceitá-la – não pode ser aplicada ao caso do qual nos ocupamos. Efetiva-mente, nenhuma relação de conhecimento pessoal, nem por carta, existia entre o arcebispo e o médium ou entre o experimentador e o arcebispo. Conseqüentemente, na falta da relação psíquica indispensável, não poderia haver uma permuta de comunicações entre duas subconsciências que se ignoravam mutuamente, do mesmo modo que na telegrafia sem fio não pode haver comunica-ções entre a estação agente e a receptora, se não houve primeiro uma sintonização de comprimento das ondas.
Relativamente às causas que determinam essa lei psicofísica, sem exceção no domínio das pesquisas psíquicas, já as discuti longamente e de um modo decisivo em um trabalho anterior. Inútil é insistir em uma verdade que, de agora em diante, pode ser considerada como adquirida em metapsíquica e que é reconhecida por todos os que possuem uma cultura suficiente sobre o assunto.
Segue-se que o episódio em questão acrescenta-se a outros casos de identificação espírita, cientificamente inatacáveis, que se acumulam em grande número nos arquivos da nova ciência da alma, sendo que cada um deles, por si só, bastaria para resolver afirmativamente o problema da sobrevivência humana. Por conse-qüência, esta solução afirmativa do grande problema deveria tomar lugar entre as verdades cósmicas mais sólidas, demonstradas experimentalmente graças às investigações científicas.
Poder-se-ia indubitavelmente observar que, se isto é teoricamente verdadeiro, apresentam-se as coisas de um modo muito diferente do ponto de vista prático. Basta considerar que há pesquisadores que conhecem, ou conheceram, a maior parte dos casos relatados e que, entretanto, permanecem negadores irredutíveis ou eternos céticos, entregues à dúvida. Isto é incontestável e depende de uma lei psicológica de alcance universal, lei normal e benéfica porque regula a evolução das grandes idéias. Ela impede que estas, impondo-se muito rapidamente na sociedade humana, possam causar desordens profundas ou cataclismos econômicos e morais, muito perigosos no conjunto das instituições sociais da época atual.
Esta lei consiste no fato de que tanto a mentalidade de um indivíduo como a de uma coletividade humana, quando se desenvolveram longamente em um meio de ensinos religiosos, científicos e filosóficos orientados em certa direção, não estão mais em situação de assimilar as novas verdades que se opõem ao que se acha solidamente organizado em suas circunvoluções cerebrais. Nestas condições, apenas as mentalidades de primeira ordem e aqueles que, na coletividade, não tiveram ocasião de experimentar pressões demasiadamente fortes e prolongadas neste sentido são capazes de se desembaraçar do misoneísmo que os domina.
Eis porque no domínio das pesquisas psíquicas se renova o que sempre acontece em qualquer outro ramo do saber, isto é, assiste-se ao triste espetáculo de um grande número de pesquisadores que, mesmo quando estão favoravelmente dispostos a aceitar a interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos de uma categoria superior e embora atravessando fases de convicção sincera neste sentido, recaem infalivelmente na perplexidade anterior. Eles continuam, durante toda a sua vida, a comportar-se da mesma maneira, passando de um caso a outro, de uma prova a outra, esquecendo tudo, sem entesourar coisa alguma e, por conseguinte, caminhando sempre no vácuo.
Infelizmente esse fenômeno psicológico não se dá só em leitores apressados e superficiais, desprovidos de senso filosófico, mas também em toda classe de leitores e investigadores, mesmo entre os mais eminentes metapsiquistas. Ele ocorre com uma tal freqüência, uma tal uniformidade, que é preciso concluir que se trata de uma lei psicológica inerente à mentalidade humana. Essa lei, embora tendo sua razão de existir e, no fundo, sendo útil à evolução ordenada do progresso humano, deve entretanto ser encarada como uma imperfeição inata da razão humana: imperfeição das faculdades de síntese, porque, quando a inteligência está saturada de idéias preconcebidas, não consegue mais manter, frente à consciência, todos os elementos que, embora conhecidos do indivíduo, se relacionam com um assunto contrário àquelas idéias preconcebidas que nele predominavam. Segue-se que a eficácia irresistível das provas cumulativas é deploravel-mente suprimida.
Com efeito, os caminhos cerebrais, tornados intransponíveis para as verdades contrárias, forçam o pensador a esquecer constante, sucessiva e rapidamente todos os episódios que ele não pode assimilar. Conserva-se, pelo contrário, perpetuamente, a recordação de todas as perplexidades de um interesse secundário, mas revestem-se, para a pessoa em questão, de aspectos mons-truosos. Os que se acham nestas condições mentais quase sempre fazem induções e deduções muito parciais, passando de uma pseudoconclusão a outra que não o é menos.
Nestas condições, não há outro remédio senão a resignação ao inelutável, refletindo que, se tudo isto é em suma providencial e necessário, um dia, fatalmente, a obra do tempo amadurecerá na coletividade humana a disposição psíquica especial que deve tornar assimilável esta última grande verdade nova. Presentemente, esta verdade é combatida por idéias filosóficas, científicas e religiosas, preconcebidas mas solidamente organizadas mesmo nos espíritos mais cultos e mais inteligentes da humanidade civilizada.

E.Bozzano
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