domingo, 29 de janeiro de 2017

Compromissos da Assistência Hospitalar Espírita


Compromissos da Assistência Hospitalar Espírita 


 Victor Passos

 A assistência espiritual no internamento hospitalar é um direito individual, logo atribui-se também o dever para o Hospital e Instituição Doutrinária, seja qual for a sua filosofia. 
Ao abordarmos trabalho assistencial, não podemos afastar-nos da relação saúde e sua definição. 
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. O Espiritismo, porém, eleva essa amplitude e ensina que saúde é o estado de completo bem-estar biopsicossocioespiritual, pois leva em consideração os fatores biológicos, psicológicos, sociais e espirituais que influenciam o ser humano na sua caminhada pela vivência terrena; com isso torna o conceito mais humanizado. 
 Em vez da Medicina do físico, que ainda exerce nos dias de hoje, o Espiritismo propõe um novo processo, o da Medicina da Alma. A saúde passou, então, a ser mais um valor da sociedade que do indivíduo. É um direito fundamental do ser humano, que deve ser assegurado sem distinção de raça, religião, ideologia política ou condição socioeconômica. A saúde é, portanto, um valor coletivo, um bem de todos, devendo cada um gozá-la individualmente, sem prejuízo de outrem e, solidariamente, com todos. A Assistência Hospitalar Espírita em Portugal é efeito dessa mudança. 
O Decreto-lei nº 253/09 veio abrir as portas ao “direito à assistência religiosa e à prática dos actos de culto”, obrigando-se o Estado a criar “as condições adequadas ao exercício da assistência religiosa nas instituições públicas”. Além disso, é relevada a “especial importância” do acesso à assistência espiritual e religiosa nas instituições do Serviço Nacional de Saúde e “reconhecida como uma necessidade essencial, com efeitos relevantes na relação com o sofrimento e a doença”, “contribuindo para a qualidade dos cuidados prestados”. 
 Nós sabemos que a doença sempre tem origem espiritual Sabemos que ainda existe muito por fazer, mas tudo tem um tempo, como os Amigos Espirituais nos dizem; então aos poucos iremos com o ganho de experiência e ajuda do estudo e conseguiremos que os médicos se abram mais da desconfiança da presença dos espíritas nos Hospitais, especialmente das áreas psicológica e psiquiátrica.
 Nós não estamos para desunir, mas para aproximar. Todo assistente espírita é um elo da saúde e deve demonstrar que não somos médicos, mas um reforço e apoio das suas terapias. A assistência espiritual é um serviço público que nasce no coração da comunidade de fé. A busca de sentido se torna ainda mais intensa em situação de fragilidade. Sabendo que o Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa (SAER) se faz pela comunhão de várias opções de fé, mesmo aplicando os seus princípios dispersos, ela se torna por demais importante, pois mais do que nunca com isto estamos a mostrar que, unidos, mais capacidades de ação temos, porque o desafio maior nesse campo é levar conforto ao doente e ao mesmo tempo respeitar a fé de cada pessoa ao ultrapassar as barreiras do proselitismo religioso e o desrespeito à visão religiosa do outro – o enfermo e sua família. 
 Nós espíritas sabemos que a doença sempre tem origem espiritual, sendo que a causa poderá ter-se dado na existência atual ou em encarnação anterior. Jesus dizia existir relação espírito-corpo nas enfermidades quando, ao curar alguém, lhe dizia: "Os teus pecados estão perdoados". Ora estes "pecados" entendamos "desequilíbrios espirituais", cujos efeitos Jesus suprimia. 
 Estas relações intereclesiais nos aproximam do verdadeiro cristão, e são uma demonstração da evolução do homem rumo à visão integral. A ajuda ao doente não pode ser uma corrida aos adeptos É de relevar neste trabalho, na internação hospitalar, ambiente que suscita cuidados ainda maiores em relação à questão religiosa e espiritual. Além do direito à liberdade de profissão de fé, garantido para os cidadãos, é preciso garantir uma relação recíproca de respeito diante da fé do outro e a assistência espiritual. 
 O doente está sempre primeiro em qualquer circunstância, o desafio está no acolhimento, visto que os internados têm opção de escolha da Filosofia que querem receber. É compreendido que experiência e o recurso da fé transcendem a cadeira científica, quanto aos processos de saúde, porém o bom senso e uso duma fé racionada transferem uma dimensão onde o diálogo e interação entre ambas é possível, ou seja, entre os diferentes estratos da concepção de saúde: profissionais, internados e familiares. Não se trata de oferecer assistência espiritual segundo grupos religiosos, mas de acordo com a opção pessoal do enfermo e sua família. 
 Enfim, é mais um passo, ao qual os espíritas têm que perceber a sua grandeza, seja pela responsabilidade, seja pela disciplina a ser empregada no trabalho hospitalar. E quando falamos em responsabilidade, é preciso que os grupos ligados aos Centros Espíritas procurem dar exemplo da prática da Codificação Espírita, numa Comunidade onde a preparação das Equipas de Assistentes deve ser bem estruturada e com conhecimento do processo de apoio ao doente, como também da higienização espiritual e física. É importante perceber que não falamos só da visita ao doente, da assistência na consulta médica, mas também do atendimento aos familiares e mesmo ao internado e, também, aos profissionais de saúde que nos procuram, para pedir ajuda. 
 Todos esses voluntários sabem que “Dar de graça o que de graça recebemos” requer entrega, assiduidade, cumprimento dos preceitos das orientações da gestão hospitalar, pois existem normas, deveres e direitos que têm de ser escrupulosamente atendidos, e a ajuda ao doente não pode ser uma corrida aos adeptos, mas à proliferação do amor pelo próximo, seja qual o credo por ele professado. 
 A terapia começa logo pela forma como nos relacionamos Importante é, também, esclarecer que não estamos nos Hospitais para curar, nem para fazer desobsessões, mas sim para consolar, orientar, esclarecer e levantar o ânimo do doente. O trabalho de índole espiritual deve realizar-se nos locais certos, claro que após os apontamentos que devemos tomar acerca do internado, para podermos oferecer o apoio da terapia espiritual. 
A terapia começa logo pela forma como nos relacionamos e ajudamos o alvo do nosso trabalho, visto sabermos que, antes de começar esse trabalho, devemos fazer o nosso preparo e, com certeza, os Amigos espirituais estarão presentes em nosso apoio. Então exige-se que os Assistentes Espíritas tenham reuniões constantes, permutando sugestões, mostrando suas preocupações, a fim de cada vez mais se prestarem um serviço de apoio ao doente, aos seus familiares e aos profissionais de saúde, mais sólido e consentâneo com os ensinos do Mestre. Concluindo, quando estivermos a falar de um doente, teremos de verificar a concepção sobre a pessoa e ter consciência de ela possuir uma dimensão corporal, psíquica e espiritual, as quais, apesar de exteriormente independentes, interiormente absorvem-se num organismo que se ordena e domina por uma natureza própria. Portanto, a alma humana é o centro do ser que tem uma natureza tridimensional: espiritual, psíquica e física. 
 Esse é o ponto essencial – e é a partir desse espaço que se mostram as outras partes do indivíduo, pois a alma tem apenas um núcleo. Pode-se, portanto, dizer que toda a trilogia da pessoa (espiritual, psíquica e física) está preparada para esse processo de desenvolvimento, pois a pessoa somente pode tornar-se algo daquilo que lhe incumbe em seu ser pessoal e pelo seu merecimento. 

 Bibliografia: 

 O Evangelho segundo Espiritismo, de Allan Kardec. Pai da Bioética - Fritz Jahr (1895-1953), art. “Controvérsias internas das igrejas cristãs, relações intereclesiais“. A Assistência Espiritual e Religiosa nas Unidades da ULSAM - Decreto-Lei nº 253/2009 / Portugal. Victor Manuel Pereira de Passos, escritor e palestrante, é membro da Associação Espírita Paz e Amor, em Viana do Castelo, Portugal.

domingo, 27 de março de 2016

Respeitar sim, repetir não


Sabemos que os textos evangélicos sofreram muitas alterações ao longo dos séculos, para atender a interesses do mundo, ditados pelo culto do poder e da ambição, ou até pela fé ingênua e cega que pretendia converter, fazendo concessões. Nesse processo, incorporaram-se rituais e crenças mágicas, muito anteriores a Jesus, dando-se-lhes estatuto cristão.
A fé raciocinada encara sem medo esses fatos, já constatados pela História, e busca a essência dos ensinamentos do Mestre. Aliás, já nos advertia Kardec, no primeiro parágrafo da introdução a “O Evangelho segundo o Espiritismo”: “Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável”.
O ensino moral do Evangelho é inatacável, sem dúvida. É o evangelho propriamente dito. O mais pode até ser lenda, ou é, pelo menos, questionável, passível de investigação histórica e científica. Portanto, não há por que se repetirem, em nosso meio, velhas abordagens fantasiosas que vestem Jesus de magia e ilusão. O Mestre se basta, dispensa enfeites que não concorrem para amadurecer o Espírito, como é o caso das festas marcadas no calendário oficial.
Tais festas representam uma tradição dos católicos e, embora merecendo nosso respeito, não fazem o menor sentido para a Doutrina Espírita. Portanto, não se justifica nas escolinhas de evangelização a comemoração de datas como a Páscoa, nos moldes do convencionalismo cristão.
É certo, porém, que as crianças trazem informações veiculadas pelos meios de comunicação, pela família, pela escola e que não devemos agredi-las com doutrinações radicais, negando tudo o que conhecem e vivenciam no mundo. Mas podemos aproveitar esses saberes, para construir o novo ou resgatar, adequadamente, o ponto de vista histórico e cultural.
No caso da Páscoa, é preciso situá-la entre as  festas ligadas a rituais de fertilidade e seus símbolos, dissociando-a da figura de Jesus, com o cuidado de não repetir a crença de que Ele a instituiu ou de que lhe deu outro sentido, assumindo a posição do cordeiro sacrificado nessa época pelos judeus, para justificar a ressurreição e dar ao corpo do Deus a função de alimento.
O mito do deus morto e do deus ressurrecto é comum a muitas culturas da antiguidade. Quando Jesus encarnou entre nós, essa crença já era conhecida e os judeus, de sua parte, haviam conferido a ela características próprias, associando-a a episódio que remonta ao tempo de  sua submissão ao Egito.
Jesus insere-se naquele contexto, é verdade, e participa dos eventos da época, mas frisa: “Meu reino não é deste mundo”. E mais: “Não quero sacrifício, mas misericórdia.”
Recuperemos a formação da palavra sacrifício: sacro + ofício. Na realidade, o Mestre da Galiléia rompe o ciclo de repetição dos velhos rituais e propõe o mandamento do amor. Misericórdia é expressão do amor. Não cobrava Jesus oferendas nos templos, nem rituais mágicos, como aquele que se realizava na páscoa. Não pretendia que se lhe oferecessem ofícios sagrados, mas sim que praticássemos a caridade.
A Terceira Revelação nos convida, através do Espírito de Verdade: “Amai-vos e instruí-vos”. Portanto, o conhecimento que nos traz a própria Doutrina assinala um compromisso com o estudo, ensejando a oportunidade de superar uma mentalidade mágica para alcançar o direcionamento da fé, pela razão. Assim, a evangelização espírita não precisa comemorar as festas da tradição cristã, mas deve constituir a festa de todo dia, porque oferece roteiro seguro para a vida e suas surpresas.
Este terceiro milênio do calendário ocidental está marcado, ao que parece, por descobertas científicas arrojadas e por inquietantes constatações da História, provocando a derrubada de velhas crenças. Se, inadvertidamente, repetimos tais crenças na Casa Espírita, estaremos entravando o progresso e perdendo a chance de esclarecimento que o próprio Espiritismo nos oferece.
A criança e o jovem precisam desenvolver uma fé robusta e vigorosa que resista não só aos ventos das novidades – com as quais são alvejados pela escola, pela mídia, pela comunicação virtual – mas também aos embates da vida. Educar-se pelo Evangelho à luz do Espiritismo é abrir uma janela para o futuro, é atravessar a linha do horizonte da acomodação, é libertar-se do velho círculo das ilusões.
Respeitar sim, repetir não. Essa deveria ser a postura dos evangelizadores na casa espírita, diante dos atavismos da tradição cristã.

Quaresma, tempo de penitências?



É chegado o tempo da quaresma, período de quarenta dias que antecede a data mais importante para o cristianismo: “A morte e a ressurreição de Cristo”.
Nesta época, os cristãos em sua maioria, são convidados à reflexão espiritual promovendo uma renovação sincera de atitudes. Para os católicos, faz-se necessário a oração, a penitência e a caridade para o encontro com Deus, tempo de preparação para a Páscoa.  
No período quaresmal é muito comum nos depararmos com pessoas cumprindo promessas, jejuando e fazendo penitências. Os fiéis mais tradicionais se abstêm do consumo da carne vermelha, outros passam os quarenta dias sem cortar o cabelo e a barba, enfim, não raro são aqueles que realizam algum tipo de sacrifício neste período.
Segundo o dicionário da língua portuguesa, a palavra penitência faz referência a arrependimento, remorso de haver ofendido a Deus, ou uma pena que o confessor impõe ao confessado. Já o sacrifício, tem o sentido de “fazer alguma coisa sagrada”, entretanto esse conceito é variável de acordo com as diferenças culturais.
De um modo geral, as penitências são caracterizadas por privações voluntárias que aproximam de alguma forma o homem a Deus, isentando-os de seus pecados.
Mas, quarenta dias seriam suficientes para redimir os homens de seus erros? Até que ponto as penitências são válidas? Será que necessitamos de um período específico para refletir nossas atitudes e dar início a uma transformação moral? 
Busquemos a resposta em O Livro dos Espíritos, nas perguntas 720, 722, e 726 no Capítulo V – “Da Lei de Conservação”:
720. São meritórias aos olhos de Deus as privações voluntárias, com o objetivo de uma expiação igualmente voluntária? 
“Fazei o bem aos vossos semelhantes e mais mérito tereis.” 
a)  Haverá privações voluntárias que sejam meritórias? 
“Há: a privação dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma. Meritório é resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis; é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. Se a privação não passar de simulacro, será uma irrisão.” 
722. Será racional a abstenção de certos alimentos, prescrita a diversos povos? 
“Permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que lhe não prejudique a saúde. Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interditar o uso de certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus.” 
726. Visto que os sofrimentos deste mundo nos elevam, se os suportarmos devidamente, dar-se-á que também nos elevam os que nós mesmos nos criamos? 
 “Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Supões que se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que de preferência não trabalham pelo bem de seus semelhantes? Vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem pelo que está enfermo; sofram privações para alívio dos infelizes e então suas vidas serão úteis e, portanto, agradáveis a Deus. Sofrer alguém voluntariamente ,apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos do Cristo.”
Analisando as afirmativas contidas em “O Livro dos Espíritos”, observamos que a visão do Espiritismo com relação às penitências, difere de outras religiões. Para a doutrina dos espíritos, as privações somente são válidas quando afastam o homem das futilidades materiais que nada acrescentam na evolução do espírito, entretanto, deve ser um exercício contínuo na busca pelo progresso moral, não limitando-se a quarenta dias a cada ano.

Terá maior mérito perante Deus, aquele que aplica sua penitência em benefício de outrem, ou seja, pratica a caridade que, aliás, para nós que ainda somos espíritos imperfeitos, ser caridoso é uma grande penitência.
Com relação a abstinência de certos alimentos, segundo o Espiritismo, nos é permitido consumir qualquer substância que não nos comprometa a saúde, em qualquer época do ano, isso se aplica ao consumo de carne. Devemos considerar que nossa matéria densa carece de proteína para funcionar adequadamente, cuja principal fonte é a carne.
A proibição do consumo de carne vermelha na quaresma surgiu na Idade Antiga, consolidando-se na Idade Média, época em que os pobres não tinham recursos para introduzir a carne em suas refeições. Desta forma a carne vermelha era consumida apenas pelos ricos nos banquetes, onde se tornou o símbolo da gula, um dos pecados capitais. Para evitar conflitos com a nobreza, a Igreja orientava o consumo de carne à livre demanda, por sete dias, antes do período quaresmal; essa tradição ficou conhecida como “carnevale” (o prazer da carne), daí a origem do carnaval. Após o “carnevale”, a população deveria abster-se da carne pelos quarenta dias que antecediam a Páscoa. O peixe não entrou nesta lista, por isso tinha o consumo liberado.
Com o passar dos tempos, a carne foi introduzida no cardápio do dia a dia, perdendo a tradição dos banquetes. E hoje, cada vez menos as pessoas praticam a abstinência de carne vermelha na quaresma, provando que esses hábitos são apenas tradições que nada tem haver com os ensinamentos do Cristo.
Diante dessas considerações, podemos afirmar que as privações voluntárias pouco contribuem para o progresso espiritual, uma vez que, o sofrimento provocado caracteriza imaturidade de nosso espírito, pois não produz nenhum efeito depurador para a alma, ao contrário do sofrimento natural.
Busquemos sim, uma reflexão profunda de nossas atitudes para auxiliar em nossa reforma íntima, pratiquemos a caridade em auxílio do próximo para sermos também auxiliados, mas lembremos, todo o tempo é tempo de plantar.

Referências
:  
“O Livro dos Espíritos” – Allan Kardec 

A propósito da Páscoa



O Natal e a Páscoa são duas festas que os cristãos de qualquer denominação religiosa comemoram bastante. A primeira, porque está associada ao advento de Jesus. A segunda, porque constitui uma prova inequívoca da imortalidade da alma.
Referimo-nos, evidentemente, no segundo caso, à chamada ressurreição de Jesus, melhor dizendo, à sua primeira aparição após a desencarnação do seu Espírito, assim registrada no Evangelho de João: 
E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni, que quer dizer: Mestre.(João 20:11-16.) 
Como ninguém certamente ignora, a festividade de Páscoa havia sido instituída bem antes no seio do povo hebreu, mas sua motivação é bem diferente da que anima os adeptos do Cristianismo.
A instituição da Páscoa judaica está relatada no livro de Êxodo, 12:1-51.
Eis um breve relato sobre as origens dessa que é para os judeus uma festa especial:
Reportando-se ao momento da saída dos hebreus do Egito, o Senhor disse a Moisés e a Aarão, ainda em terra egípcia, que aquele seria o primeiro dos meses do ano, e que ao décimo dia cada um tomasse um cordeiro para a sua família. Se as pessoas na casa fossem poucas para comerem o cordeiro, convidassem os vizinhos. O cordeiro deveria ser macho, de um ano, sem defeito, e poderia ser um cabrito com as mesmas qualidades. O animal seria guardado até o dia 14, para ser imolado à tarde. O sangue do animal deveria ser colocado sobre as duas ombreiras e sobre a verga das portas de suas casas, onde, na mesma noite, a carne do cordeiro, assada ao fogo, seria comida, acompanhada de pães asmos e alfaces bravas.
Era a instituição da Páscoa, isto é, a passagem do Senhor, visto que naquela noite o Senhor passaria pela terra do Egito e aí mataria todos os primogênitos, desde os homens até aos animais. O sangue nas portas das casas impediria que as famílias dos hebreus fossem atingidas. Seria aquele um dia memorável, que deveria ser celebrado de geração em geração como um culto perpétuo, como uma festa solene em honra do Senhor.
Tudo aconteceu conforme fora anunciado pelo Senhor, uma vez que no meio da noite todos os primogênitos da terra do Egito, desde o filho do Faraó até ao primogênito dos cativos e dos animais, foram feridos de morte. Não houve no Egito casa onde não houvesse algum morto. O Faraó chamou, então, Moisés e Aarão na mesma noite e autorizou a saída dos hebreus, com os seus rebanhos e familiares, e mesmo os egípcios insistiram com o povo hebreu para que saísse logo, com medo de morrer.
Os filhos de Israel fizeram o que Moisés lhes havia ordenado, e partiram. Eram cerca de seiscentos mil homens, fora os meninos, conduzindo uma inumerável multidão de ovelhas, gados e animais de diversos gêneros, em grande número. Completavam-se 430 anos desde que os filhos de Israel foram morar no Egito. A noite em que o Senhor os tirou do Egito deveria ser lembrada por todas as gerações, como o Senhor disse a Moisés e a Aarão: “Este é o rito da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela”. Os escravos deveriam ser circuncidados, e então poderiam comer; já os estrangeiros e os mercenários, não. Se algum peregrino desejasse celebrar a Páscoa do Senhor, primeiro fizesse a circuncisão e poderia celebrá-la. 
É difícil, quando lemos os livros do Antigo Testamento, distinguir o que é fato e o que é simples alegoria.
No caso em foco, se os fatos descritos realmente aconteceram, a Páscoa judaica não comemora somente a saída dos hebreus, mas uma matança generalizada do povo egípcio e, o que é pior, atribuída ao próprio Senhor, seja lá o que significa tal palavra.
Como Deus instituiu, por intermédio de Moisés, o mandamento “não matarás”, que compõe o Decálogo, não é possível que Ele, ou qualquer dos seus prepostos, assim agisse.
Diferentemente, a Páscoa comemorada pelos cristãos não enaltece a morte, mas a imortalidade, porque nos oferece a prova indiscutível de que alma e corpo são elementos distintos e que, se a morte é real para o nosso corpo precário, ela em nada afeta a alma, que continua a viver, do mesmo modo que vivia antes de sua imersão na carne.