domingo, 27 de março de 2016

Respeitar sim, repetir não


Sabemos que os textos evangélicos sofreram muitas alterações ao longo dos séculos, para atender a interesses do mundo, ditados pelo culto do poder e da ambição, ou até pela fé ingênua e cega que pretendia converter, fazendo concessões. Nesse processo, incorporaram-se rituais e crenças mágicas, muito anteriores a Jesus, dando-se-lhes estatuto cristão.
A fé raciocinada encara sem medo esses fatos, já constatados pela História, e busca a essência dos ensinamentos do Mestre. Aliás, já nos advertia Kardec, no primeiro parágrafo da introdução a “O Evangelho segundo o Espiritismo”: “Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável”.
O ensino moral do Evangelho é inatacável, sem dúvida. É o evangelho propriamente dito. O mais pode até ser lenda, ou é, pelo menos, questionável, passível de investigação histórica e científica. Portanto, não há por que se repetirem, em nosso meio, velhas abordagens fantasiosas que vestem Jesus de magia e ilusão. O Mestre se basta, dispensa enfeites que não concorrem para amadurecer o Espírito, como é o caso das festas marcadas no calendário oficial.
Tais festas representam uma tradição dos católicos e, embora merecendo nosso respeito, não fazem o menor sentido para a Doutrina Espírita. Portanto, não se justifica nas escolinhas de evangelização a comemoração de datas como a Páscoa, nos moldes do convencionalismo cristão.
É certo, porém, que as crianças trazem informações veiculadas pelos meios de comunicação, pela família, pela escola e que não devemos agredi-las com doutrinações radicais, negando tudo o que conhecem e vivenciam no mundo. Mas podemos aproveitar esses saberes, para construir o novo ou resgatar, adequadamente, o ponto de vista histórico e cultural.
No caso da Páscoa, é preciso situá-la entre as  festas ligadas a rituais de fertilidade e seus símbolos, dissociando-a da figura de Jesus, com o cuidado de não repetir a crença de que Ele a instituiu ou de que lhe deu outro sentido, assumindo a posição do cordeiro sacrificado nessa época pelos judeus, para justificar a ressurreição e dar ao corpo do Deus a função de alimento.
O mito do deus morto e do deus ressurrecto é comum a muitas culturas da antiguidade. Quando Jesus encarnou entre nós, essa crença já era conhecida e os judeus, de sua parte, haviam conferido a ela características próprias, associando-a a episódio que remonta ao tempo de  sua submissão ao Egito.
Jesus insere-se naquele contexto, é verdade, e participa dos eventos da época, mas frisa: “Meu reino não é deste mundo”. E mais: “Não quero sacrifício, mas misericórdia.”
Recuperemos a formação da palavra sacrifício: sacro + ofício. Na realidade, o Mestre da Galiléia rompe o ciclo de repetição dos velhos rituais e propõe o mandamento do amor. Misericórdia é expressão do amor. Não cobrava Jesus oferendas nos templos, nem rituais mágicos, como aquele que se realizava na páscoa. Não pretendia que se lhe oferecessem ofícios sagrados, mas sim que praticássemos a caridade.
A Terceira Revelação nos convida, através do Espírito de Verdade: “Amai-vos e instruí-vos”. Portanto, o conhecimento que nos traz a própria Doutrina assinala um compromisso com o estudo, ensejando a oportunidade de superar uma mentalidade mágica para alcançar o direcionamento da fé, pela razão. Assim, a evangelização espírita não precisa comemorar as festas da tradição cristã, mas deve constituir a festa de todo dia, porque oferece roteiro seguro para a vida e suas surpresas.
Este terceiro milênio do calendário ocidental está marcado, ao que parece, por descobertas científicas arrojadas e por inquietantes constatações da História, provocando a derrubada de velhas crenças. Se, inadvertidamente, repetimos tais crenças na Casa Espírita, estaremos entravando o progresso e perdendo a chance de esclarecimento que o próprio Espiritismo nos oferece.
A criança e o jovem precisam desenvolver uma fé robusta e vigorosa que resista não só aos ventos das novidades – com as quais são alvejados pela escola, pela mídia, pela comunicação virtual – mas também aos embates da vida. Educar-se pelo Evangelho à luz do Espiritismo é abrir uma janela para o futuro, é atravessar a linha do horizonte da acomodação, é libertar-se do velho círculo das ilusões.
Respeitar sim, repetir não. Essa deveria ser a postura dos evangelizadores na casa espírita, diante dos atavismos da tradição cristã.

Quaresma, tempo de penitências?



É chegado o tempo da quaresma, período de quarenta dias que antecede a data mais importante para o cristianismo: “A morte e a ressurreição de Cristo”.
Nesta época, os cristãos em sua maioria, são convidados à reflexão espiritual promovendo uma renovação sincera de atitudes. Para os católicos, faz-se necessário a oração, a penitência e a caridade para o encontro com Deus, tempo de preparação para a Páscoa.  
No período quaresmal é muito comum nos depararmos com pessoas cumprindo promessas, jejuando e fazendo penitências. Os fiéis mais tradicionais se abstêm do consumo da carne vermelha, outros passam os quarenta dias sem cortar o cabelo e a barba, enfim, não raro são aqueles que realizam algum tipo de sacrifício neste período.
Segundo o dicionário da língua portuguesa, a palavra penitência faz referência a arrependimento, remorso de haver ofendido a Deus, ou uma pena que o confessor impõe ao confessado. Já o sacrifício, tem o sentido de “fazer alguma coisa sagrada”, entretanto esse conceito é variável de acordo com as diferenças culturais.
De um modo geral, as penitências são caracterizadas por privações voluntárias que aproximam de alguma forma o homem a Deus, isentando-os de seus pecados.
Mas, quarenta dias seriam suficientes para redimir os homens de seus erros? Até que ponto as penitências são válidas? Será que necessitamos de um período específico para refletir nossas atitudes e dar início a uma transformação moral? 
Busquemos a resposta em O Livro dos Espíritos, nas perguntas 720, 722, e 726 no Capítulo V – “Da Lei de Conservação”:
720. São meritórias aos olhos de Deus as privações voluntárias, com o objetivo de uma expiação igualmente voluntária? 
“Fazei o bem aos vossos semelhantes e mais mérito tereis.” 
a)  Haverá privações voluntárias que sejam meritórias? 
“Há: a privação dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma. Meritório é resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis; é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. Se a privação não passar de simulacro, será uma irrisão.” 
722. Será racional a abstenção de certos alimentos, prescrita a diversos povos? 
“Permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que lhe não prejudique a saúde. Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interditar o uso de certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus.” 
726. Visto que os sofrimentos deste mundo nos elevam, se os suportarmos devidamente, dar-se-á que também nos elevam os que nós mesmos nos criamos? 
 “Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Supões que se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que de preferência não trabalham pelo bem de seus semelhantes? Vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem pelo que está enfermo; sofram privações para alívio dos infelizes e então suas vidas serão úteis e, portanto, agradáveis a Deus. Sofrer alguém voluntariamente ,apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos do Cristo.”
Analisando as afirmativas contidas em “O Livro dos Espíritos”, observamos que a visão do Espiritismo com relação às penitências, difere de outras religiões. Para a doutrina dos espíritos, as privações somente são válidas quando afastam o homem das futilidades materiais que nada acrescentam na evolução do espírito, entretanto, deve ser um exercício contínuo na busca pelo progresso moral, não limitando-se a quarenta dias a cada ano.

Terá maior mérito perante Deus, aquele que aplica sua penitência em benefício de outrem, ou seja, pratica a caridade que, aliás, para nós que ainda somos espíritos imperfeitos, ser caridoso é uma grande penitência.
Com relação a abstinência de certos alimentos, segundo o Espiritismo, nos é permitido consumir qualquer substância que não nos comprometa a saúde, em qualquer época do ano, isso se aplica ao consumo de carne. Devemos considerar que nossa matéria densa carece de proteína para funcionar adequadamente, cuja principal fonte é a carne.
A proibição do consumo de carne vermelha na quaresma surgiu na Idade Antiga, consolidando-se na Idade Média, época em que os pobres não tinham recursos para introduzir a carne em suas refeições. Desta forma a carne vermelha era consumida apenas pelos ricos nos banquetes, onde se tornou o símbolo da gula, um dos pecados capitais. Para evitar conflitos com a nobreza, a Igreja orientava o consumo de carne à livre demanda, por sete dias, antes do período quaresmal; essa tradição ficou conhecida como “carnevale” (o prazer da carne), daí a origem do carnaval. Após o “carnevale”, a população deveria abster-se da carne pelos quarenta dias que antecediam a Páscoa. O peixe não entrou nesta lista, por isso tinha o consumo liberado.
Com o passar dos tempos, a carne foi introduzida no cardápio do dia a dia, perdendo a tradição dos banquetes. E hoje, cada vez menos as pessoas praticam a abstinência de carne vermelha na quaresma, provando que esses hábitos são apenas tradições que nada tem haver com os ensinamentos do Cristo.
Diante dessas considerações, podemos afirmar que as privações voluntárias pouco contribuem para o progresso espiritual, uma vez que, o sofrimento provocado caracteriza imaturidade de nosso espírito, pois não produz nenhum efeito depurador para a alma, ao contrário do sofrimento natural.
Busquemos sim, uma reflexão profunda de nossas atitudes para auxiliar em nossa reforma íntima, pratiquemos a caridade em auxílio do próximo para sermos também auxiliados, mas lembremos, todo o tempo é tempo de plantar.

Referências
:  
“O Livro dos Espíritos” – Allan Kardec 

A propósito da Páscoa



O Natal e a Páscoa são duas festas que os cristãos de qualquer denominação religiosa comemoram bastante. A primeira, porque está associada ao advento de Jesus. A segunda, porque constitui uma prova inequívoca da imortalidade da alma.
Referimo-nos, evidentemente, no segundo caso, à chamada ressurreição de Jesus, melhor dizendo, à sua primeira aparição após a desencarnação do seu Espírito, assim registrada no Evangelho de João: 
E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni, que quer dizer: Mestre.(João 20:11-16.) 
Como ninguém certamente ignora, a festividade de Páscoa havia sido instituída bem antes no seio do povo hebreu, mas sua motivação é bem diferente da que anima os adeptos do Cristianismo.
A instituição da Páscoa judaica está relatada no livro de Êxodo, 12:1-51.
Eis um breve relato sobre as origens dessa que é para os judeus uma festa especial:
Reportando-se ao momento da saída dos hebreus do Egito, o Senhor disse a Moisés e a Aarão, ainda em terra egípcia, que aquele seria o primeiro dos meses do ano, e que ao décimo dia cada um tomasse um cordeiro para a sua família. Se as pessoas na casa fossem poucas para comerem o cordeiro, convidassem os vizinhos. O cordeiro deveria ser macho, de um ano, sem defeito, e poderia ser um cabrito com as mesmas qualidades. O animal seria guardado até o dia 14, para ser imolado à tarde. O sangue do animal deveria ser colocado sobre as duas ombreiras e sobre a verga das portas de suas casas, onde, na mesma noite, a carne do cordeiro, assada ao fogo, seria comida, acompanhada de pães asmos e alfaces bravas.
Era a instituição da Páscoa, isto é, a passagem do Senhor, visto que naquela noite o Senhor passaria pela terra do Egito e aí mataria todos os primogênitos, desde os homens até aos animais. O sangue nas portas das casas impediria que as famílias dos hebreus fossem atingidas. Seria aquele um dia memorável, que deveria ser celebrado de geração em geração como um culto perpétuo, como uma festa solene em honra do Senhor.
Tudo aconteceu conforme fora anunciado pelo Senhor, uma vez que no meio da noite todos os primogênitos da terra do Egito, desde o filho do Faraó até ao primogênito dos cativos e dos animais, foram feridos de morte. Não houve no Egito casa onde não houvesse algum morto. O Faraó chamou, então, Moisés e Aarão na mesma noite e autorizou a saída dos hebreus, com os seus rebanhos e familiares, e mesmo os egípcios insistiram com o povo hebreu para que saísse logo, com medo de morrer.
Os filhos de Israel fizeram o que Moisés lhes havia ordenado, e partiram. Eram cerca de seiscentos mil homens, fora os meninos, conduzindo uma inumerável multidão de ovelhas, gados e animais de diversos gêneros, em grande número. Completavam-se 430 anos desde que os filhos de Israel foram morar no Egito. A noite em que o Senhor os tirou do Egito deveria ser lembrada por todas as gerações, como o Senhor disse a Moisés e a Aarão: “Este é o rito da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela”. Os escravos deveriam ser circuncidados, e então poderiam comer; já os estrangeiros e os mercenários, não. Se algum peregrino desejasse celebrar a Páscoa do Senhor, primeiro fizesse a circuncisão e poderia celebrá-la. 
É difícil, quando lemos os livros do Antigo Testamento, distinguir o que é fato e o que é simples alegoria.
No caso em foco, se os fatos descritos realmente aconteceram, a Páscoa judaica não comemora somente a saída dos hebreus, mas uma matança generalizada do povo egípcio e, o que é pior, atribuída ao próprio Senhor, seja lá o que significa tal palavra.
Como Deus instituiu, por intermédio de Moisés, o mandamento “não matarás”, que compõe o Decálogo, não é possível que Ele, ou qualquer dos seus prepostos, assim agisse.
Diferentemente, a Páscoa comemorada pelos cristãos não enaltece a morte, mas a imortalidade, porque nos oferece a prova indiscutível de que alma e corpo são elementos distintos e que, se a morte é real para o nosso corpo precário, ela em nada afeta a alma, que continua a viver, do mesmo modo que vivia antes de sua imersão na carne. 

Páscoa, além do dogma

Páscoa, além do dogma
Judeus e cristãos do mundo inteiro celebram, nesta época, a Páscoa.
Com motivos e tradições diferentes, este é o tempo da renovação, da mudança, da transformação, para todos.
As efemérides religiosas sugerem sempre ideias muito mais generosas e profundas do que o acontecimento que pretendem comemorar.
Pode-se mesmo afirmar que o simbolismo das datas é bem mais significativo do que o fato em si.
Veja-se, por exemplo, o tema da Páscoa cristã.
Apesar de as igrejas sustentarem o dogma de que Jesus morreu e, ao terceiro dia, ressuscitou dos mortos, num episódio sobrenatural e miraculoso, é possível aceitar-se uma outra versão, bem mais racional. Ela é compartilhada, por exemplo, por nós, espíritas: a de que não ocorreu exatamente uma ressuscitação do corpo de Jesus. As aparições ocorridas após sua morte a pessoas que o amavam e a quem ele amava teriam sido nada mais que materializações de seu Espírito luminoso, dando o testemunho de sua sobrevivência.
Os dogmas religiosos podem ser valiosos para manterem a fé, mas deixam de ter importância para quem busca e encontra seu sentido mais profundo.
Muito além do dogma, a Páscoa aponta para o amplo sentido da vida, como processo contínuo de transformação e de libertação gradual do Espírito na busca da plenitude.