terça-feira, 8 de junho de 2010

Transportes a pedido ou em que se encontram modalidades de produção que excluem toda possibilidade de fraude


Na enumeração dos casos que me propus tratar, desejava seguir uma disposição em grupos, segundo as várias modalidades com que são produzidos os numerosos fenômenos de transportes, aqui considerados, modalidades que excluem toda possibilidade de práticas fraudulentas, malgrado a condição de plena obscuridade em que foram obtidas. Entretanto, o meu propósito não se mostrou praticamente utilizável, visto que, em uma mesma sessão, às vezes se agrupam episódios de transportes diferenciados por modali-dades de produção as mais diversas, o que me constrange a renunciar a uma disposição ordenada desses episódios. Não resta senão o recurso de contornar esse pequeno inconveniente por meio de um resumo final em que se contenham todas as modalidades com que eles são produzidos.
Quando consultamos as obras e as revistas publicadas nos primeiros quarenta anos de pesquisas no campo das manifestações supranormais, encontramos bom número de extraordinários casos de transportes diferenciados pelas condições de produção aqui consideradas, não obstante renuncio a relatá-los para não exorbitar nas proporções da presente monografia, reservando espaço para os episódios do gênero, obtidos em mais recentes decênios e em nossos dias.
Acerca das manifestações relativamente antigas, aludirei, de passagem, a alguns incidentes obtidos com a mediunidade do Rev. William Stainton Moses para depois demorar-me um tanto em torno de episódios obtidos graças à mediunidade da Sra. Guppy (então Sra. Nicoll), e isto pela consideração de que essa médium, tornada famosa pelos casos de transporte da própria pessoa de uma casa para outra, não é bastante conhecida como maravilhosa mé-dium de transportes a cujo respeito deve-se acrescentar que algumas sessões notabilíssimas por ela realizadas em Florença, durante uma viagem de recreio à Itália, são literalmente ignoradas, conquanto se mostrem dignas de sair do esquecimento.

Caso I – Malgrado a variedade e a importância dos fenômenos de transportes obtidos com a mediunidade do Rev. Moses, em que, entre outros, se classifica a rara especialidade de transportes de pequenas gemas (pérolas orientais, esmeraldas, safiras, bem como camafeus de origem supranormal), raros são os episódios que apresentam algumas das características aqui contempladas. Não obstante, verificaram-se chuvas de pérolas orientais em plena luz (até trinta perolazinhas de uma só vez) e isso nos intervalos entre uma e outra sessões, no momento em que os experimentadores passavam à sala de refeições para tomar chá e, em outra circunstância, a Sra. Speer viu uma perolazinha oriental pousar em cima do papel de carta no qual escrevia.
Não me estendo sobre essa fase interessantíssima da mediunidade de Moses, porquanto o espírito-guia “Rector” já explicara que não se tratava de transportes verdadeiros e sim de criações espiríticas. Observo, de qualquer maneira, que se tratava de criações de gemas autênticas e duradouras e, quando Moses, conforme ordem recebida, foi a uma joalheria para fazer engastar o magnífico rubi mediúnico em um anel que devia trazer constantemente no dedo, o joalheiro, depois de tê-lo longamente examinado, observou que aquele rubi era de uma beleza e de uma pureza excepcionais.
Destaco, dentre os vários transportes obtidos a pedido, dois seguintes episódios colhidos nos relatórios da Sra. Speer:
“Sessão de 7 de Setembro de 1872 – Esta noite nos reunimos como de costume. Logo se manifestou o nosso amigo A., que respondeu a várias perguntas e tocou, a pedido nosso, o seu maravilhoso instrumento espiritual. “Mentor” espargiu em abundância um delicioso perfume para harmoni-zar os fluidos. Eu pedi que me fosse trazido um objeto que se achava no meu quarto de dormir. Quase imediatamente me foi posto na mão um frasco de perfume que se encontrava sobre a minha mesa de toalete.” (Light, 1892, pág. 391).

Na sessão de 18 de janeiro de 1873 lê-se este outro episódio:
“Esta noite o quarto foi inundado de perfumes e as manifestações de ordem física foram poderosas. Em um dado momento, caiu entre mim e o dr. Speer um livro que provinha da biblioteca fechada à chave. O Dr. Speer então nos informou que pedira mentalmente ao “Mentor” para trazer-lhe algum objeto que se achasse fora da zona fluídica que circundava o médium.” (Light, 1892, pág. 523).

Este segundo episódio, conforme pedido formulado mentalmente, se mostra mais do que nunca interessante do ponto de vista probatório. Observo que a biblioteca, da qual foi trazido o livro transportado, se achava na sala das sessões, mas como o livro foi tirado da seção envidraçada da biblioteca, sempre fechada à chave, o fato se traduz em transporte, visto que o fenômeno da penetração da matéria se realizou igualmente.
Relato ainda este outro episódio de transporte de uma campainha. Escreve Moses:
“Na sessão de 28 de agosto (1873), sete objetos, tirados de aposentos diversos, foram transportados; no dia 30 outros quatro, entre os quais uma campainha, levada da sala de jantar contígua ao quarto das experiências. É de notar-se que se deixava sempre aceso o gás, com toda chama, tanto na sala de jantar como na saleta, em razão do que, se alguém abrisse qualquer uma das portas, certa onda de luz teria logo invadido o aposento em que fazíamos as experiências. Como o fato não se verificou mais, obtivemos com isto a tal prova que o Dr. Carpenter considera a mais desejável, isto é, a prova do “bom senso”, visto que as duas portas permaneceram sempre fechadas. Na sala de jantar se achava uma campainha e nós a ouvimos, imprevistamente, tilintar e pudemos seguir-lhe o movimento no ar, observando que o ruído se aproximava lentamente da porta que a separava de nós. Pode-se facilmente imaginar o espanto de todos nós quando, a despeito da porta, ouvimos a campainha tilintar dentro do quarto, aproximando-se lentamente de nós. Deu a volta ao quarto, tilintando sempre, depois desceu, passou por debaixo da mesa e elevou-se um pouco, chegando ao nível de meu cotovelo. Veio tilintar justamente debaixo do meu nariz, de-pois em torno da cabeça de todos os presentes, um após outro, e finalmente pousou delicadamente em cima da mesa.” (Proceedings of the S. P. R., vol. IX, pág. 267).

Ao ler o magnífico episódio aqui exposto, ocorreu-me logo à memória um caso semelhante obtido por William Crookes com a mediunidade da Srta. Kate Fox. A diferença existente entre os dois episódios consiste na circunstância de que, no caso de Crookes, a campainha transportada começou a tilintar quando já se achava na sala das sessões, ao passo que, no caso de Moses, a campainha já o fizera em outro aposento, fornecendo, desta forma, um complemento de prova sobre a genuinidade do fenômeno, que se mostra então positivo. E isto é quanto importa do ponto de vista a que me propus com a presente classificação.
Noto ainda, no episódio em apreço, que o que me parece mais espantoso é a circunstância de ter a campainha penetrado na sala sem quase deixar de tilintar. Caso estivessem apagadas as luzes da sala de refeições, ter-se-ia podido explicar o mistério, supondo que, em tal contingência, se tivesse produzido o fenômeno inverso da desintegração de uma parte da porta, através da qual passara a campainha, mas como a sala de refeições estava iluminada, não é possível recorrer-se a tal plausível solução do mistério. Dever-se-á, portanto, inferir que o fenômeno da desintegração e reintegração da campainha se produziu com tal rapidez que o intervalo de silêncio foi bastante curto para não ser notado pelos experimentadores.

Caso II – Devendo ocupar-nos da mediunidade da Sra. Guppy (antes Srta. Nicoll), não posso deixar de extrair algumas citações dos escritos do famoso naturalista Alfred Russell Wallace, que foi quem descobriu as faculdades mediúnicas. Ele, no seu livro On miracles and modern Spiritualism, escreve nestes termos:
“Conheci a Srta. Nicoll antes de nunca ter ela ouvido falar de mesas girantes e do Espiritismo e descobri-lhe as faculdades mediúnicas por mera especulação, convidando-a a tomar parte em nossas experiências. Isso aconteceu em novembro de 1866 e por alguns meses continuamos ininterruptamente as nossas sessões, de modo que tive facilidade em vigiar e acompanhar o maravilhoso desenvolvimento de sua mediunidade. A forma mais notável por ela assumida consistia nos transportes de flores e frutas, em um quarto hermeticamente fechado. O fenômeno se produziu, pela primeira vez, em minha casa e isto se deu no início de seu desenvolvimento mediúnico. Esse fenômeno, porém, se verificou centenas de vezes em ambientes diversos, sob condições variadíssimas. Algumas vezes as flores chegaram, de repente, em tal quantidade, que formaram um grande monte sobre a mesa e, além disso, aconteceu muitas vezes que flores e frutas eram transportadas justamente a pedido dos experimentadores. Assim, por exemplo, um meu amigo pediu um girassol e logo caía em cima da mesa uma dessas plantas da altura de seis pés, com as suas raízes envoltas em uma espessa camada de terra.”

Um episódio análogo a este último foi narrado pelo conhecido escritor espiritualista Robert Cooper, amigo de Russell Wallace e seu companheiro de experiências. Escreve ele:
“Certa vez, depois do jantar, dirigi-me à casa do Sr. Guppy, em Highbury, c por ele soube que a sua esposa fora passar a noite na residência de uma família vizinha. O Sr. Guppy acrescentara que se tratava de novos conhecidos, bem como de pessoas ignorantes das coisas do Espiritismo e que lhe haviam pedido para assistir a algumas sessões do gênero, em vista do que me prontifiquei a acompanhá-lo àquela casa. Sucedeu, portanto, que, pelas 6 horas, dirigimo-nos juntos para ela. Depois do chá, resolvemos fazer uma sessão. O quarto era pequeno e perfazíamos uma dúzia de pessoas sentadas em círculo, ao redor da mesa, razão pela qual não ficava espaço algum para se passar entre um e outro de nós. Apagou-se a luz e pouco depois pancadinhas alfabéticas pediram aos presentes que especificassem as coisas que desejavam fossem transportadas e alguns pediram flores e outros frutas. Eu, a princípio, pensei numa couve-flor, mas como não estivesse certo de que era época dela, disse: “Trazei-me um torrão de terra com erva.” Poucos minutos após vimos sinais manifestos de que a minha ordem estava traduzida em ato, pois um dos presentes acusou ter sido tocado no peito por algo de impreciso. Logo depois sucedeu outro tanto comigo e, ao mesmo tempo, notei algo de indefinido que me caía no colo. Acendeu-se a luz e então todos viram que se encontrava no meu colo um torrão de terra úmida com ramos de erva bem compridos. Apenas pus-lhe a mão, notei, com espanto, que dentro da terra úmida da raiz se contorciam minhocas! Evidentemente o torrão fora arrancado, naquele momento, de algum prado dos arredores.” (Light, 1896, pág. 165).

E agora passo a citar alguns trechos não menos interessantes, tomados de sessões realizadas em Londres e em Florença, mas igualmente ignoradas de todos, visto que só foram relatadas por experimentadores italianos, bem como publicadas exclusivamente na revista Annali dello Spiritismo in Italia, dirigida pelo professor Scarpa (Niceforo Filalete) e há muitos anos extinta.
Transcrevo, antes de tudo, um longo trecho da narração de Achille Tanfani, redator da publicação supracitada, o qual, tendo ido a Londres a negócio, teve ocasião de assistir a algumas sessões com a Sra. Guppy. Escreve ele:
“Fui favorecido pelo nosso excelente amigo Sr. Damiani com uma carta que me apresentou aos Guppy e tive, com isto, a fortuna de presenciar grande parte das maravilhas mediúnicas que, com tanto prazer, eu lera nos jornais espíritas da Inglaterra.
Sexta-feira, 23 de junho de (1874) – Não obstante uma neblina que me ocultava a vista do magnífico palácio de Westminster e uma chuva miúda que filtrava de um céu escuro, abalei-me do meu hotel em Rupert Street e me dirigi para o n° 1 da Morland Villa, moradia do casal Guppy. Passamos o dia em agradável palestra e, depois do jantar, fui gentilmente convidado pela Sra. Guppy a acompanhá-la a uma casa da cidade, onde prometera fazer uma sessão espírita.
O oferecimento não podia ser mais cativante e, pouco depois, eu me achava numa carruagem em companhia dos Guppy e de certa Sra. Fisher, em direção àquela residência. Devo fazer notar que o veículo era tão pequeno que só havia lugar para quatro pessoas, de modo que ficaram amarrotados até os vestidos das senhoras e mais ou menos importunadas as pernas de todos. Esta observação, conquanto frívola, poderá servir para dar maior realce aos fenômenos que estou para descrever. Depois de uma boa hora de caminho, chegamos finalmente ao n° 7, Dane Inn, casa do Sr. Volkmann, nosso amável hospedeiro.
Achei na sua casa uma pequena mas seleta assistência de seis ou sete pessoas, entre as quais o Sr. Greck, coronel do exército russo. Tomamos todos os lugares em redor de uma grande e pesada mesa, numa saleta do andar térreo que dava para o corredor de entrada por uma única porta, que foi fe-chada à chave. Durante a breve palestra que precedeu à sessão, tive facilidade em inspecionar o aposento, mas nada descobri que pudesse ter a menor relação com os belíssimos fenômenos de que fui testemunha. Apenas feita a obscuridade e mantendo-nos todos em cadeia, em volta da mesa, esta começou a fazer movimentos bruscos e ondulatórios com tal força que foi bom que não nos encontrássemos em andar superior, pois de outra forma teríamos receado pelo soalho. Logo uma brisa bastante agradável, em uma noite tão quente e naquele quarto hermeticamente fechado, veio bafejar-nos as mãos e os rostos e repetidamente fomos banhados com água de colônia. Seguiram-se alguns golpes misteriosos, inimi-táveis. Parecia-nos que se estava batendo não na superfície, mas no interior da madeira e, ao mesmo tempo, alguma coisa caiu em cima da mesa, de tanto peso que, movidos pela curiosidade, acendemos a luz e pode-se calcular a nossa surpresa ao encontrarmos sobre a mesa um grande pé de “uva-espim”, com terra e raízes, que, em altura e largura, media mais de dois pés.
Foi novamente apagada a luz e, alguns minutos após, caiu uma chuva de rosas, que, na claridade, achamos tão frescas e tão umedecidas de orvalho que parecia terem sido colhidas ali mesmo, e nove insetos multicores esvoaçavam de uma pa-ra outra flor.
Tornamos a fazer a obscuridade, por recomendação dos invisíveis, e esperamos só poucos instantes quando diversos objetos foram atirados sobre a mesa e verificamos, com a luz acesa, se tratarem de um limão, uma laranja, um grande pepino e um enorme ramo de framboesas com a altura de cerca de seis pés. Compreende-se que seria preciso uma pequena despensa para esconder todas essas coisas e seria bem pueril crer que a Sra. Guppy tivesse podido ocultá-las naquela pequena carruagem em que fôramos para a sessão. Acrescento que essas plantas têm espinhos agudos e que a fragrância das flores as teria revelado ao olfato, caso se tivesse meios de subtraí-las à vista. De rosas a quantidade foi tal que, depois de cada um de nós ter feito o seu ramalhete, ainda sobrou bastante para enfeitar toda a comitiva.” (Annali dello Spiritismo in Italia, 1874, pág. 274 ).

Em outra sessão, à qual teve ocasião de assistir o mesmo Achille Tanfani na casa dos Guppy, presente também o escritor Robert Cooper, produziram-se outros fenômenos da mesma natureza, mas que não relatarei aqui para não me alongar muito, salvo o seguinte episódio em que se verificou o aparecimento de outros animaizinhos vivos. Escreve o narrador:
“Em um dado momento derramou-se água perfumada sobre nós e fomos gentilmente acariciados com raminhos de cerejas, nos quais, acesa a luz, descobrimos dois escaravelhos vivos, com muito pavor da Sra. Guppy, que tem por eles repug-nância.” (Idem, pág. 302).

E agora passo a narrar os principais trechos dos relatórios sobre as sessões com a Sra. Guppy, em Florença, relatórios esses escritos por Rinaldo Dall'Argine, secretário da Società Spiritica Florentina e um dos mais inteligentes e beneméritos espíritas da primeira hora.
Tiro os trechos, aqui reproduzidos, dos Annali dello Spiritismo in Italia (1869, pág. 178 e seguintes). O relator assim começa:
“A Sra. Guppy, apenas chegada a Florença, fez amizade com a condessa Enrichetta Bartolomei, esposa do Sr. conde Tomaso Passerini, e como são ambos ardorosos e perseverantes cultores de nossa doutrina e muito freqüentemente fazem experiências em sua residência, a Sra. Guppy, por eles convidada a dar provas de suas extraordi-nárias faculdades mediúnicas, se prestou com toda a boa vontade e obteve os costumeiros fenômenos...
A primeira sessão, que a Sra. Guppy fez na casa Passerini, foi na noite de 23 de dezembro de 1868. Os convidados, em número de 14 ou 15, eram todos espíritas e, em volta de uma mesa redonda, do diâmetro de cerca de um metro, se sentaram os cônjuges Guppy e muitos dos assistentes. A médium quis que lhe ligassem as mãos e que a dona da casa as prendesse entre as suas e assim se fez. O Dr. Wilson (um dos con-vidados) segurou as mãos do Sr. Guppy. As outras pessoas do círculo estavam em torno da mesa, em segunda linha, for-mando cadeia.
Após alguns minutos, a médium (sempre de mãos ligadas e seguras pela Sra. Passerini) mandou apagar a luz. Com a sala em profunda escuridão, ouvimos pancadas na mesa como se alguém, com os nós dos dedos, batesse sobre ela. Então, por meio da tipologia, houve um diálogo entre o Sr. Guppy e o espírito que se manifestava.
A Sra. Bulli (médium vidente que assistia à sessão) disse ver uma grande quantidade de flores, entre as quais distinguia, claramente, uma belíssima rosa vermelha, muito grande e com três folhas. Alguns minutos após, foi por todos sentido um suave perfume de flores e depois como que uma chova que caísse em cima da mesa. Cessado o rumor ouvido e acesa a luz, ficaram todos maravilhados ao achar o móvel inteiramente coberto de flores fresquíssimas. As flores eram junquilhos, violetas, gerânios, magnólias, cravos e uma belíssima camélia vermelha em três folhas, que a médium vidente já vislumbrara na escuridão e que, pela sua semelhança, julgara ser uma rosa.
Na noite de 26 do citado mês, a Sra. Guppy voltou à mesma casa para dar novas provas de sua mediunidade. Os resultados foram pouco mais ou menos iguais aos obtidos na noite de 23. Tivemos, por duas vezes, uma abundante chuva de flores frescas, fresquíssimas mesmo, e todas molhadas (naquela noite chovia deveras). Uma senhora, tendo pedido ao espírito alguns animaizinhos vivos, como, por exemplo, um passarinho, um rato ou um coelho, o espírito não se fez de rogado e logo pôs sobre a mesa diversos insetos alados, quase todos grandes, que eu não sei como denominar, os quais, depois de terem passeado em cima e em baixo da parte superior da mesa, alçaram vôo e se foram embora. O espírito presenteou-nos com algumas maçãs, limões e laranjas. Antes, uma dessas me foi arremessada, com certa força, contra o peito, mas sem me causar o menor mal.
Também, naquela noite, a Sra. Guppy e seu marido, quando a sala ainda estava na mais completa escuridão, não tinham livres as mãos, que eram firmemente seguras por aquelas que se achavam mais próximas. Todas as vezes que os cônjuges Guppy se encontram em alguma casa, para tentar qualquer experiência, sempre exigem que sejam revistados para dissipar qualquer suspeita de que possam ocultar objetos que, na escuridão, caiam sobre os assistentes.
Os esposos Guppy, que são de uma rara gentileza, recusavam favorecer, com as suas presenças, a nossa sociedade. Enquanto esperávamos que o número de sócios estivesse completo para começarmos as nossas experiências, alguém disse que não podia compreender como é que os espíritos podiam distinguir as cores na escuridão. Apagada a luz, manifestou-se um espírito que ditou, pela tipologia, as seguintes palavras: “Há aqui alguém que acredita que os espíritos não vêem no escuro.” Cessadas as batidas, reinou, durante alguns minutos, o mais profundo silêncio, quando, de repente, ouviram-se como que uma chuva de folhas secas a cair em cima da mesa. Acesa a luz, vimos a mesa coberta de confeitos de diversas cores: brancos, vermelhos, verdes, amarelos, etc. Então o espírito convidou-nos a reuni-los todos em um só monte, no meio da mesa, e a apagar de novo a luz, o que logo se fez. Depois de breves instantes, por ordem do mesmo espírito, foi acesa a luz e, com grande surpresa nossa, verificamos que os confeitos haviam sido separados segundo as suas cores, isto é, os brancos estavam todos reunidos à parte, os vermelhos igualmente, os verdes também e assim todos os outros. O espírito, operando aquela separação, quisera provar que os espíritos podem, na escuridão, que só existe para nós, distinguir perfeitamente as cores.
Pela terceira vez a Sra. Guppy se prestou a servir de médium à Società Spiritica Florentina. Também dessa vez foram tomadas as habituais precauções, isto é, revistar o casal Guppy e segurar-lhe bem firmemente as mãos por todo o tempo em que as luzes estivessem apagadas. O primeiro resultado que obtivemos foi uma abundante chuva de fresquíssimas flores de diversas qualidades e que embalsama-ram o ar com os seus perfumes suaves. Todos os presentes tiveram a sua parte e as senhoras, terminadas as experiências, partiram munida cada uma de um belo buquê. Depois daquela chuva de flores, as luzes foram apagadas de novo e, quando reinava o mais completo silêncio, fomos todos abalados por uma fortíssima pancada vibrada na mesa, semelhante à que teria produzido uma grande pedra que sobre ela houvesse caído. Reacendida a luz, achamos, não uma grande pedra, como acreditávamos, mas um grande pedaço de gelo, claro como cristal, do cumprimento de 15 centímetros e 10 espessura, o qual, ao cair, se partira.
Pode-se calcular a surpresa de todos: o tamanho daquele pedaço de gelo era para liquidar qualquer dúvida que alguém alimentasse. Quem teria podido escondê-lo no próprio bolso e ocultá-lo por tanto tempo, sem ficar completamente molha-do?”

Paro aqui com as citações. Para quem quer que se proponha a analisar os fatos, sem deixar ofuscar a sua mente pela caligem dos preconceitos, deveriam bastar os episódios citados para admitir a existência indubitável dos fenômenos de transporte.
Com efeito, nos referidos trechos, se contém tudo quanto poderia legitimamente exigir-se para prática e racionalmente reconhecer a genuinidade de uma fenomenologia supranormal obtida em condições de completa escuridão.
É de notar-se, antes de tudo, a circunstância de que, nas experiências de Florença, os cônjuges Guppy, a seu próprio pedido, foram sempre revistados, bem como constantemente seguros pelas mãos, enquanto, além disto, a médium exigia que se lhe ligassem as mãos às dos seus vizinhos. E malgrado essas condições inexcedíveis de segurança contra qualquer prática fraudulenta, não só foram obtidas as habituais e abundantíssimas chuvas de flores e frutos, mas, numa noite em que chovia torrencialmente, as flores transportadas estavam literalmente molhadas pela chuva, circunstância teoricamente notabilíssima do ponto de vista probatório e que se renova muitas vezes nos fenômenos de transporte. Quem escreve já a obteve uma vez cem a mediunidade de Eusápia Paladino (como mais adiante se lerá), e na Inglaterra obtiveram-se transportes de flores cobertas de flocos de neve, e isso em correspondência com o fato de que, naquele momento, nevava. Noto, além disso, que nas sessões de Florença foram obtidos casos de transporte a pedido, o primeiro dos quais se realizou com a chegada de animaizinhos vivos, pertencentes à classe dos coleópteros, e o segundo, mais extraordinário ainda, foi provocado pela observação de um assistente (o que naturalmente se identifica com um transporte a pedido). Aludo com isto ao transporte dos confeitos multicores que a entidade comunicante subdivide, em plena obscuridade, em tantos montes quantas eram as suas cores, fenômeno que serve, portanto, para provar a gênese supranormal dos transportes produzidos. E, como se tal não bastasse, chega-se, enfim, ao magnífico fenômeno do transporte de um grande pedaço do gelo (15 centímetros de lado e 10 de espessura), coisa que a médium não teria podido ocultar sob as saias, sujeita ao calor do corpo, por uma hora e meia, sem derreter inteiramente e formar uma lagoa no soalho.
Observo que o fenômeno do transporte de pedaços de gelo se produziu outras vezes com a Sra. Guppy. Assim, por exemplo, o célebre escritor inglês Adolph Trollope atestou, perante a Comissão de Inquérito da Sociedade Dialética, que numa sessão com a médium em apreço foi atirado sobre a mesa um enorme pedaço de gelo com tal ruído e com tanto ímpeto que o gelo ficou em pedacinhos, acrescentando que “o fenômeno se dera uma hora depois de começada a sessão, de modo que se o gelo já estivesse no aposento aquecido ter-se-ia derretido completamente”. (Relatório da Sociedade Dialética, pág. 371). Saliento, enfim, que o professor Ochorowicz refere que, com a sua própria médium, Sra. Tomczyk, obteve, a pedido, o transporte de um punhado de neve, em correspondência com o fato de que, naquele momento, nevava (Annales des Sciences Psychiques, 1909, pág. 71).
Demorei-me em tratar das sessões de Florença porque elas foram otimamente fiscalizadas. Noto, não obstante, que as experiências antes relatadas são igualmente positivas do ponto de vista probatório. Pense-se na circunstância referida por Achille Tanfani, que fora a uma sessão na casa dos Volkmann numa carruagem em que se achavam quatro pessoas, inclusive a médium, apertadas e imobilizadas pela falta de espaço, circunstância que prova que a médium, em semelhante condição de cerceio recíproco, não teria podido esconder, junto ao seu corpo, uma porção de rosas, que foram achadas fresquíssimas, bem como umedecidas de orvalho; limões, laranjas, pepinos, um grande pé de “uva-espim” com terra e raízes, que, em altura e largura, media mais de dois pés, um grande galho de framboesa da altura de seis pés e nove insetos multicores que se puseram a voar de flor em flor.
Pense-se ainda no outro episódio de Achille Tanfani, que pede o transporte de uma relva que lhe caiu pouco depois no colo e, quando a observou, descobriu que, na terra úmida, aderente às raízes, se contorciam minhocas. E, a propósito de animaizinhos vivos, recordo ainda o transporte de dois escaravelhos em rami-nhos de cerejas em flor, enquanto em outra sessão, de que fala Podmore na sua obra (vol. II, Pág. 67), foram transportados caranguejos e enguias vivos. Recordo, finalmente, outro fenômeno obtido, a pedido, de um pé de girassol de seis pés de altura, na casa do naturalista Russell Wallace. Diante disso, observo que não me parece ter exagerado quando disse que os fenômenos de transportes, que se produziam com a mediunidade da Sra. Guppy, bastam também, por si sós, para provar, experimentalmente, a existência incontestável desses fenômenos.
Isto posto, apresso-me a repetir o que disse antes, isto é, que, se bastam e devem bastar, do ponto de vista estritamente pessoal, poucos casos bem fiscalizados para levar racionalmente à convicção quem quer que não tenha a mente ofuscada por preconceitos, o mesmo não se pode afirmar no caso de demonstrações científicas para as quais se exige confirmação de um dado fenômeno sob formas suficientemente variadas e bastante numerosas para se ter um modo de aplicar, à série inteira dos fenômenos investigados, os processos da análise comparada e da convergência das provas. A Ciência tem uma elevadíssima missão a cumprir no mundo: a de iluminar e guiar a humanidade na sua lenta evolução social e espiritual e tudo isso implica uma grandiosa responsabilidade moral nos representantes do saber, responsabi-lidade esta que exige o caminhar, com cautela, pela estrada que conduz à verdade. Assim sendo, só me resta continuar com a exposição dos fatos.
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