domingo, 27 de março de 2016

A propósito da Páscoa



O Natal e a Páscoa são duas festas que os cristãos de qualquer denominação religiosa comemoram bastante. A primeira, porque está associada ao advento de Jesus. A segunda, porque constitui uma prova inequívoca da imortalidade da alma.
Referimo-nos, evidentemente, no segundo caso, à chamada ressurreição de Jesus, melhor dizendo, à sua primeira aparição após a desencarnação do seu Espírito, assim registrada no Evangelho de João: 
E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni, que quer dizer: Mestre.(João 20:11-16.) 
Como ninguém certamente ignora, a festividade de Páscoa havia sido instituída bem antes no seio do povo hebreu, mas sua motivação é bem diferente da que anima os adeptos do Cristianismo.
A instituição da Páscoa judaica está relatada no livro de Êxodo, 12:1-51.
Eis um breve relato sobre as origens dessa que é para os judeus uma festa especial:
Reportando-se ao momento da saída dos hebreus do Egito, o Senhor disse a Moisés e a Aarão, ainda em terra egípcia, que aquele seria o primeiro dos meses do ano, e que ao décimo dia cada um tomasse um cordeiro para a sua família. Se as pessoas na casa fossem poucas para comerem o cordeiro, convidassem os vizinhos. O cordeiro deveria ser macho, de um ano, sem defeito, e poderia ser um cabrito com as mesmas qualidades. O animal seria guardado até o dia 14, para ser imolado à tarde. O sangue do animal deveria ser colocado sobre as duas ombreiras e sobre a verga das portas de suas casas, onde, na mesma noite, a carne do cordeiro, assada ao fogo, seria comida, acompanhada de pães asmos e alfaces bravas.
Era a instituição da Páscoa, isto é, a passagem do Senhor, visto que naquela noite o Senhor passaria pela terra do Egito e aí mataria todos os primogênitos, desde os homens até aos animais. O sangue nas portas das casas impediria que as famílias dos hebreus fossem atingidas. Seria aquele um dia memorável, que deveria ser celebrado de geração em geração como um culto perpétuo, como uma festa solene em honra do Senhor.
Tudo aconteceu conforme fora anunciado pelo Senhor, uma vez que no meio da noite todos os primogênitos da terra do Egito, desde o filho do Faraó até ao primogênito dos cativos e dos animais, foram feridos de morte. Não houve no Egito casa onde não houvesse algum morto. O Faraó chamou, então, Moisés e Aarão na mesma noite e autorizou a saída dos hebreus, com os seus rebanhos e familiares, e mesmo os egípcios insistiram com o povo hebreu para que saísse logo, com medo de morrer.
Os filhos de Israel fizeram o que Moisés lhes havia ordenado, e partiram. Eram cerca de seiscentos mil homens, fora os meninos, conduzindo uma inumerável multidão de ovelhas, gados e animais de diversos gêneros, em grande número. Completavam-se 430 anos desde que os filhos de Israel foram morar no Egito. A noite em que o Senhor os tirou do Egito deveria ser lembrada por todas as gerações, como o Senhor disse a Moisés e a Aarão: “Este é o rito da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela”. Os escravos deveriam ser circuncidados, e então poderiam comer; já os estrangeiros e os mercenários, não. Se algum peregrino desejasse celebrar a Páscoa do Senhor, primeiro fizesse a circuncisão e poderia celebrá-la. 
É difícil, quando lemos os livros do Antigo Testamento, distinguir o que é fato e o que é simples alegoria.
No caso em foco, se os fatos descritos realmente aconteceram, a Páscoa judaica não comemora somente a saída dos hebreus, mas uma matança generalizada do povo egípcio e, o que é pior, atribuída ao próprio Senhor, seja lá o que significa tal palavra.
Como Deus instituiu, por intermédio de Moisés, o mandamento “não matarás”, que compõe o Decálogo, não é possível que Ele, ou qualquer dos seus prepostos, assim agisse.
Diferentemente, a Páscoa comemorada pelos cristãos não enaltece a morte, mas a imortalidade, porque nos oferece a prova indiscutível de que alma e corpo são elementos distintos e que, se a morte é real para o nosso corpo precário, ela em nada afeta a alma, que continua a viver, do mesmo modo que vivia antes de sua imersão na carne. 

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