sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Grande Batalha

Aquele homem havia identificado os seus ideais e instintos no
Evangelho. Se a sua era uma doença, podia ser denominada a doença do
Evangelho. Enquanto este é lido, comentado, pregado, repetido,
pacificamente, sem incómodo, sem deslocar nada da própria vida, do
mesmo modo é costume com tantas mentiras convencionais, o Evangelho
alcançar aprovação plena do mundo. Mas é considerado doença quando
alguém pretende vivê-lo seriamente; praticá-lo deveras, nos factos,
não como coisa aplicada na superfície da pele, mas fundida no sangue,
como parte da própria vida. Torna-se, então, um escândalo também entre
os crentes, quando se fazem as coisas de verdade, quando, depois de
tanto trabalho e esforço de adaptação, se haja conseguido alcançar um
resultado feliz, ficam todos de pleno acordo, o que bastaria um
consentimento formal exterior. Esta é a linha traçada pelos costumes
do mundo, é a lei consagrada pelo uso, consolidada pela prescrição.
Desobedecer a esses costumes constitui bem grande incómodo para os
bem-pensantes, importa numa espécie de revolução no meio de todas as
adaptações tão bem destiladas, produto de esforços seculares. Por
certo que os génios, Os heróis e os santos levaram a efeito estas
revoltas, mas quem pensa em imitá-los? Eles estão no alto, sobre os
pedestais dos monumentos, nos altares, lá em cima, fora da vida
prática que possui bem outras exigências. E, se viveram, isto se deu
quem sabe onde ou quando, por certo bem, longe das nossas férreas
necessidades de todo dia, e mais longe ainda fugiram para os seus céus
inacessíveis. O que fazer então? Impossível é a evasão do dever da
vida sem incidir em maior dano. Devendo aceitar a vida e tendo de
vivê-la nessas condições, o, nosso personagem não pode fazer outra
coisa a não ser transformá-la em missão, tudo sofrendo pelo bem
alheio, ajudando no caminho da evolução. Vida de sacrifícios. Mas quem
mais possui, não pode possuir somente para Si; a quem está na frente
compete o dever de fazer com que os outros, também, se adiantem. Se
ele, no seu passado, havia experimentado e vivido de larga forma o
Evangelho, se o havia assimilado e, dele, pela repetição constante,
havia constituído para si aqueles automatismos que formam os
instintos, competia-lhe guiar os outros no mesmo trabalho de
assimilação. O que representava para ele o seu passado, constituía o
porvir dos outros, e a esse futuro é preciso chegar.

O homem actual acredita estar mandando. Mas como pode fazê-lo quem
ainda não conhece a máquina que deve dirigir? Quando o homem acredita
mandar, na verdade, obedece aos próprios instintos; quando grita que
quer liberdade, sem sabê-lo pede a liberdade de obedecer àqueles
instintos. Representam estes a mola para a continuação da vida: a
fome, para a conservação individual, o amor, para a conservação da
espécie, o instinto de expansão e progresso, para a evolução do ser;
tudo vivido conforme a lei biológica da luta tendente a selecção do
mais forte, daquele que representa o tipo que a evolução quer produzir
naquele plano e que, por isso, naquele nível é o melhor, o óptimo
entre os valores, ainda que, depois, com o deslocamento da escala dos
valores evolutivos, em outros planos de vida, ele possa representar um
involuído retrógrado, considerado um pior Estamos prevalecentemente,
ainda, no plano animal em que dominam os instintos Se nele aparecem,
por vezes, elementos éticos superiores, o terreno é sempre o dos
instintos, que religiões e leis procuram disciplinar, canalizando-os,
mas, mesmo assim, respeitando-os porque constituem a base naqueles
planos de vida.

A Grande Batalha, da qual tratamos neste volume, toma precisamente em
consideração o encontro, no terreno humano, entre animalidade e
espiritualidade. A primeira toma sua expressão numa orientação
materialista epicúrea, a segunda numa espiritual idealista. Estes dois
pólos são, efectivamente, os norteadores do pensamento humano: ciência
e fé, poder civil e poder religioso, estado e igreja, correspondentes
aos dois elementos fundamentais do ser humano: corpo e espírito, o
primeiro filho da animalidade do passado, o outro conquista do porvir.
A Grande, Batalha desferra-se, ente os dois, o corpo animal, da
retaguarda, e o espírito, da vanguarda. A função das normas das leis e
das religiões, promulgadas por superiores evolvidos, como nossos
guias, é exactamente a de cortar as presas da besta, para levantá-la
educando-a em formas de vida mais civilizadas.

Com isto podemos compreender a posição actual do homem ao longo da
escala da evolução e qual seja a função biológica dos princípios
ideais da ética e das religiões. Isto permite-nos atribuir ao
Evangelho, verdadeiro código religioso da civilização ocidental, além
das suas significações comuns, também uma expressão biológica, a
estabelecer um seu especial valor ainda no terreno científico,
definindo sua posição ao longo do caminho da evolução. Biologicamente
o Evangelho representa o futuro e, algum dia, portanto, haverá de
tornar-se realidade. Eis, então, que tudo isto pode fornecer uma prova
racional de que os princípios do Evangelho irão vencer e isto, não
para o triunfo desta ou daquela religião ou partido, mas por lei de
evolução que é lei de vida para todos. Vamos aqui desenvolver o
conceito apontado um pouco antes. Valoriza-se, assim, o Evangelho
também em face da ciência, tomando uma nova significação positiva,
como expressão de um fenómeno social biológico, fatalmente ligado ao
desenvolvimento do fenómeno da vida. O Evangelho, na sua substância,
eleva-se, assim, ao valor de fenómeno biológico universal que haverá
de verificar-se, não somente entre este ou aquele povo, mas em todo
lugar onde haja vida.

A Grande Batalha – Pietro Ubaldi


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Fernando Leal
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