segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mediunidade de Jesus





“Se alguém julga ser profeta ou inspirado pelo  Espírito, reconheça  um
mandamento do Senhor nas coisas que estou escrevendo para vocês”
  (PAULO, aos  coríntios).


Introdução


A mediunidade é uma faculdade humana que consiste na sintonia  espiritual entre  dois seres. Normalmente, a usamos para designar a influência de um  Espírito desencarnado  sobre um encarnado, entretanto, julgamos que, acima de tudo, por se  tratar de uma  aquisição do Espírito imortal, pouco importa a situação em que se  encontram esses  dois seres, para que se processe a ligação espiritual entre eles.
É comum que ataques ao Espiritismo ocorram por conta desse “dom”,  como se ele  viesse a acontecer exclusivamente em nosso meio. Ledo engano, pois,  conforme já  o dissemos, é uma faculdade humana, e assim sendo, todos a possuem,  variando apenas  quanto ao seu grau.
Os detratores querem, por todos os meios, fazer com que as pessoas  acreditem  que isso é coisa nova, mas podemos provar que a mediunidade não é coisa  nova e que  até mesmo Jesus dela pode nos dar notícias. É o que veremos a seguir.


A mediunidade e Jesus


Quando Jesus recomenda a seus doze discípulos a divulgação de que o  “reino do  Céu está próximo” fica evidenciado, aos que estudaram ou vivenciam esse  fenômeno,  que o Mestre estava falando mesmo era da faculdade mediúnica.  Entretanto, por conta  dos tradutores ou dos teólogos, essa realidade ficou comprometida no  texto bíblico.  Entretanto, como é impossível “tapar o sol com uma peneira”, podemos  perfeitamente  identificá-la, apesar de todo o esforço para escondê-la.
O evangelista Mateus narra o seguinte:
Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Portanto,  sejam prudentes  como as serpentes e simples como as pombas. Tenham cuidado com os  homens, porque  eles entregarão vocês aos tribunais e açoitarão vocês nas sinagogas  deles. Vocês  vão ser levados diante de governadores e reis, por minha causa, a fim de  serem testemunhas  para eles e para as nações. Quando entregarem vocês, não fiquem  preocupados como  ou com aquilo que vocês vão falar, porque, nessa hora, será sugerido a  vocês o que  vocês devem dizer. Com efeito, não serão vocês que irão falar, e sim o  Espírito  do Pai de vocês é quem falará através de vocês”. (10,16-20).
A primeira observação que faremos é que por ter tentado a Eva, dizem  que a serpente  seria o próprio satanás, entretanto, isso fica estranho, porquanto o  próprio Jesus  nos recomenda sermos prudentes como as serpentes. Esse fato demonstra  que tal associação  é apenas fruto do dogmatismo que só produz o fanatismo religioso.
Essa fala de Jesus é inequívoca quanto ao fenômeno mediúnico: “não  fiquem  preocupados como ou com aquilo que vocês vão falar, porque, nessa hora,  será sugerido  a vocês”, e arremata: “Com efeito, não serão vocês que  irão falar,  e sim o Espírito do Pai de vocês é quem falará através de vocês”.  A tentativa  de esconder o fenômeno fica por conta da expressão “o Espírito do Pai”,  quando a  realidade é “um Espírito do Pai” a mudança do artigo indefinido para o  artigo definido  tem como objetivo principal desvirtuar a fenomenologia em primeiro plano  e em segundo,  mais um ajuste de texto bíblico para apoiar a trindade divina copiada  dos povos  pagãos.
O filósofo e teólogo Carlos Torres Pastorino abordando a questão da  mudança do  artigo, diz:
“...Novamente sem artigo. Repisamos: a língua grega não possuía  artigos indefinidos.  Quando a palavra era determinada, empregava-se o artigo definido ‘ho,  he, to’. Quando  era indeterminada (caso em que nós empregamos o artigo indefinido), o  grego deixava  a palavra sem artigo. Então quando não aparece em grego o artigo, temos  que colocar,  em português, o artigo indefinido: UM espírito santo, e nunca traduzir  com o definido:  O espírito santo”. (Sabedoria do Evangelho, volume 1, pág 43).
Se sustentarmos a expressão “o Espírito do Pai” teremos forçosamente  que admitir  que o próprio Deus venha a se manifestar num ser humano. Pensamento  absurdo como  esse só pode ser pela falta de compreensão da grandeza de Deus. Dizem os  cientistas  que no cosmo há 100 bilhões de galáxias, cada uma delas com cerca de 100  bilhões  de estrelas, fazendo do Universo uma coisa fora do alcance de nossa  limitada imaginação,  mas, mesmo que a custa de um grande esforço, vamos imaginar tamanha  grandeza. Bom,  façamos agora a pergunta: o que criou tudo isso? Diante disso, admitir  que esse  ser possa estar pessoalmente inspirando uma pessoa é fora de proposto,  coisa aceitável  a de povos primitivos, cujos conhecimentos não lhes permitem ir mais  longe, por  restrição imposta pelo seu hábitat.


A mediunidade no apostolado


Um fato, que reputamos como de inquestionável ocorrência da  mediunidade, aconteceu  logo depois da morte de Jesus, quando os discípulos reunidos receberam “como   que línguas de fogo” e começaram a falar em línguas, de tal sorte  que, apesar  da heterogeneidade do povo que os ouvia, cada um entendia o que falavam  em sua própria  língua. Fato extraordinário registrado no livro Atos dos Apóstolos,  desta forma:
“Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos  no mesmo  lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte  vendaval, e encheu  a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de  fogo, que  se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos  do Espírito  Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes  concedia  que falassem. Acontece que em Jerusalém moravam judeus devotos de todas  as nações  do mundo. Quando ouviram o barulho, todos se reuniram e ficaram  confusos, pois cada  um ouvia, na sua própria língua, os discípulos falarem”. (Atos 2,  1-6).
Aqui podemos identificar o fenômeno mediúnico conhecido como  xenoglossia, que  na definição do Aurélio é: A fala espontânea em língua(s) que não  fora(m) previamente  aprendida(s). Mas, como da vez anterior, tentam mudar o sentido, para  isso alteram  o artigo indefinido para o definido, quando a realidade seria exatamente  que estavam  “repletos de um Espírito santo (bom)”.
Fato semelhante aconteceu, um pouco mais tarde, nomeado como o  Pentecostes dos  pagãos:
“Pedro ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre  todos os  que ouviam a Palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com  Pedro, ficaram  admirados de que o dom do Espírito Santo também fosse derramado sobre os  pagãos.  De fato, eles os ouviam falar em línguas estranhas e louvar a grandeza  de Deus...”  (At 10, 44-46).
Episódio que confirma que “Deus não faz acepção de pessoas”  (At 10,34),  daí podermos estender à mediunidade como uma faculdade exclusiva a um  determinado  grupo religioso, mas existindo em todos segmentos em suas expressões de  religiosidade.


A mediunidade como era “transmitida”


A bem da verdade não há como ninguém transmitir a mediunidade para  outra pessoa,  entretanto, pelos relatos bíblicos, a imposição das mãos fazia com que  houvesse  sua eclosão, óbvio que naqueles que a possuíam em estado latente.  Vejamos algumas  situações em que isso ocorreu.
Em Atos 8, 17-18:
“Então Pedro e João impuseram as mãos sobre os samaritanos, e eles  receberam  o Espírito Santo. Simão viu que o Espírito Santo era comunicado através  da imposição  das mãos. Dêem para mim também esse poder, a fim de que receba o  Espírito todo aquele  sobre o qual eu impuser as mãos”.
Simão era um mago que, com suas artes mágicas, deixava o povo da  região de Samaria  maravilhado. Mas, ao ver o “poder” de Pedro e João, ficou impressionado  com o que  fizeram, daí lhes oferece dinheiro a fim de que dessem a ele esse poder,  para que  sobre todos os que ele impusesse as mãos, também recebessem o Espírito  Santo.
Em Atos 19, 1-7:
“Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as regiões  mais altas  e chegou a Éfeso. Encontrou aí alguns discípulos, e perguntou-lhes:  ‘Quando vocês  abraçaram a fé receberam o Espírito Santo?’ Eles responderam: ‘Nós nem  sequer ouvimos  falar que existe um Espírito Santo’. Paulo perguntou: ‘Que batismo vocês  receberam?’  Eles responderam: ‘O batismo de João’. Então Paulo explicou: ‘João  batizava como  sinal de arrependimento e pedia que o povo acreditasse naquele que devia  vir depois  dele, isto é, em Jesus’. Ao ouvir isso, eles se fizeram batizar em nome  do Senhor  Jesus. Logo que Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre  eles, e  começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram, ao todo, doze homens”.
Será que podemos entender que o batismo de Jesus é “receber o  Espírito Santo”,  conseguido pela imposição das mãos? A narrativa nos leva a aceitar essa  hipótese,  apenas mantemos a ressalva feita anteriormente quanto à expressão “o  Espírito Santo”.


A mediunidade como os dons do Espírito


Na estrada de Damasco, Paulo, que até então perseguia os cristãos,  numa ocorrência  transcendente, se encontra com Jesus, passando, a partir daí, a  segui-lo. Durante  o seu apostolado se comunicava diretamente com o Espírito de Jesus,  demonstrando  sua incontestável mediunidade.
Aliás, o apóstolo Paulo foi quem mais entendeu do fenômeno mediúnico,  tanto que  existem recomendações preciosas de sua parte aos agrupamentos cristãos  de então.  Ele o chamava de “dons do Espírito”. “Sobre os dons do  Espírito,  irmãos, não quero que vocês fiquem na ignorância” (1Cor 12,1),  mostrando-se  interessado em que todos pudessem conhecer tais fenômenos.
E esclarece o apóstolo dos gentios:
“Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo; diferentes  serviços, mas  o Senhor é o mesmo; diferentes modos de agir, mas é o mesmo Deus que  realiza tudo  em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade  de todos.  A um, o Espírito dá a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de  ciência segundo  o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o  único e mesmo  Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a  outro, a  profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de  falar em línguas;  a outro ainda, o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo Espírito  quem realiza  tudo isso, distribuindo os seus dons a cada um, conforme ele quer”.  (1 Cor 12,4-11).
Novamente, mudando-se “o Espírito” para “um Espírito”, estaremos  diante da faculdade  mediúnica, basta “ter olhos de ver”.
Ao que parece, naquela época, os médiuns se preocupavam mais com a  xenoglossia  Paulo para desfazer esse engano novamente faz outras recomendações aos  coríntios  (1Cor 14,1-25). Disse ele:
“...aspirem aos dons do Espírito, principalmente à profecia. Pois  aquele que  fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus. Ninguém o entende, pois  ele, em  espírito, diz coisas incompreensíveis. Mas aquele que profetiza fala aos  homens:  edifica, exorta, consola. Aquele que fala em línguas edifica a si mesmo,  ao passo  que aquele que profetiza edifica a assembléia. Eu desejo que vocês todos  falem em  línguas, mas prefiro que profetizem. Aquele que profetiza é maior do que  aquele  que fala em línguas, a menos que este mesmo as interprete, para que a  assembléia  seja edificada...”.


Conclusão


Como apregoa a Doutrina Espírita o fenômeno mediúnico nada mais é que  uma ocorrência  de ordem natural. Podemos identificá-lo desde os mais remotos tempos da  humanidade,  e não poderia ser diferente, pois, em se tratando de uma manifestação de  uma faculdade  humana, deverá ser mesmo tão velha quanto a permanência do homem aqui na  Terra.
Mas, infelizmente, a intolerância religiosa, a ignorância e, por  vezes, a má-vontade,  não permitiu que fosse divulgada da forma correta, ficando mais por  conta de uma  ocorrência sobrenatural, que só acontecia a uns poucos privilegiados.  Coube ao Espiritismo  a desmistificação desse fenômeno, bem como a sua explicação racional.  Kardec nos  deixou um legado importantíssimo para todos que possam se interessar  pelo assunto,  quando lança O Livro dos Médiuns, que recomendamos aos que buscam  o conhecimento  dessa fenomenologia, ainda muito incompreendida em nossos dias.
Nov/2004.


Referência bibliográfica.


  • PASTORINO, Carlos Torres, Sabedoria do Evangelho, volume 1, Revista  Mensal  Sabedoria, Rio, 1964.
  • Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, 43ª ed. 2001.

Paulo da Silva Neto Sobrinho
Postar um comentário